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SOBRE O TEMPO E ESSAS COISAS

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Foto: Giovanni Scarascia (Uruçuca, BA) O vento, sempre o vento A desfazer o que nunca era feito Nada arrumado, penteado, preso. Com alma desnuda, ela tentou, com dentes de tartaruga,   Algo que pudesse prender o que queria se soltar. Sem medo, susto e com gosto de jabuticaba, Engravidou-se de mar, alívio e tentação. Nas areias macias Encontrava-se meio desconhecida Tentando encaixar duas em uma. Não. A gente não é mais o que era   E não será o que será . O vento faz movimento nas areias, nos cabelos e nos desejos.  Se move em sol e em si bemol. Mas se move principalmente em dó.  Dó maior.   No piano, na guitarra, na flauta e no doce barulho das ondas.   Vai transformando em música o seu zumbido feroz.  (Herta Scarascia, 2013)

PALAVRAS

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Palavras.  Apenas. Palavras escritas não têm  flex ã o. Podem ser elo de liga çã o, de desliga çã o. Um poema. Tolo, livre, perdido, profundo.  E até mesmo um haicai .   Podem, livremente, ir e vir.  Palavras. Inócuas, profundas, marcantes, tocantes. Azuis, amarelas, quadradas, enquadradas.   C astelos, de areia ou de mármore – de Carrara ou de qualquer barraco . Discorrem pontes ao infinito.  Tornando o piso escorregadio.   Transformam pedras onde havia areia. Tampam a luz que jazia insone sobre o travesseiro.   Perdem-se no eterno inconsciente,  Alagando a pista da vida cansada. Palavras, palavras... vomitadas ao léu, como estas, que saem quente feito um fogaréu.  Ou frias, sem sentido, como picolé de chuchu.  No princípio, dizem, era o Verbo... e o que fizemos com o Verbo?   Ah, sim! Estamos conjugando. Eu, tu, ele, nós, vó...

DOCE ANGEL

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Foto: Herta Scarascia  (show de tango em Buenos Aires) Da boca nua, crua Verdades não ditas Aromas indescritíveis Que só existem na Calle Florida O morno da tarde factual, fatal Dá lugar às utopias que moram dentro de cada um Para todos os tons, matizes Do profundo Vermelho Carmesim   Ao doce Angel Provando o sabor do Brave, da Diva e do Fanfare... Flutuando na loucura do Morange Para desmaiar no Impassione! Sutis, imperceptíveis Ardem, queimam, adoçam, salgam, E contaminam. Dançam! Como loucas meninas de um cabaré Que um dia, iluminado com neon fúcsia,  aconchegavam os desejos proibidos dos  homens velhos, mau amados,  De cigarro, charuto e mentes Igualmente contaminadas Por desejos insanos  Das mulheres, que de vida não tem nada,  Arrancam um sorriso ou outro,  Entre fumaça, música, sonhos, Mas também quimera e fantasia, a despeito de qualquer conto e tanto. E tang...

ALMA COR DE ROSA

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Foto: Herta Scarascia Foto: Herta Scarascia E como nuvem cor de rosa Quem sabe lilás, violeta... ou coisa e tal Brindo a vida com sabor de algodão doce Assim, de graça, com graça, fazendo graça Sobrevoo as montanhas de Minas Deixando os sonhos pra trás e conduzindo-me à paz Paz de quem sabe o prazer da serenidade  Como alimento que nos basta Repousar a alma sadia Repouso, repouso... Sem a pressa da juventude Só, só e só... Em amplitude de harmonia  Com o sagrado que há em nós  Doce sobrevoo  Voo de algodão doce (Herta Scarascia)

POBRE FÚCSIA

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Saíram feito plumagens De fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento, um tanto inconsciente Da alforria indolente Romper as paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Pobres, pobres, pobres! Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave, tacanho (Herta,   05/11/2015) Foto: Herta

GOTA DE PESSOA

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Foto: Herta Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta.  Não é o que estou chorando.  O que choro é diferente.  Entra mais na alma da alma.  Mas como, no céu sem gente,  A nuvem flutua calma.  E isto lembra uma tristeza  E a lembrança é que entristece,  Dou à saudade a riqueza  De emoção que a hora tece.  Mas, em verdade, o que chora  Na minha amarga ansiedade  Mais alto que a nuvem mora,  Está para além da saudade.  Não sei o que é nem consinto  À alma que o saiba bem.  Visto da dor com que minto  Dor que a minha alma tem.  Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"  

O MENINO E A CATURRITA

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(Foto: Herta Scarascia)  Zona da Mata... um dos locais mais pobres de Minas Gerais. E também um dos mais bucólicos.  Nesses recantos, onde o fogão a lenha fica aceso o dia todinho esperando, quiçá, um vizinho se achegá prum dedo de prosa... Nesses refúgios entre a mata e a mata, entre as montanhas e as montanhas, onde a vista se perde em meio ao verde... e são tantos... há também muito a ver, a sentir, a viver!  Os verdes me encantam. Ultrapassam o número de nuances ditadas como existentes.  Verde é tudo. E tudo é verde. Verde também é a caturrita do menino em meio ao verde da casinha verde onde moram na Serra do Brigadeiro.  Dona Rita, mãe do pequeno, me contou que queria pintar as paredes de dentro da casa de verde. Por quê? Ela acha bonito.  Mal sabe ela o poder do verde. Verde é suave e energético.  Relaxa sem dar preguiça.  Verde é abacate, é grama, é menta, é mato, é energia. É esperança, é descanso, é passarinho, é beleza...

IDÍLICO

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Suave ondulado Soprado pela brisa preguiçosa da manhã Em azul idílico, sobrevive como um capitão  Nas galés dos navios urbanos (Herta) (Foto: Herta)

DIA CINZA EM EDIMBURGO

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(Foto: Herta Scarascia) Sol, sol mesmo, só quando o verão resolve premiar os moradores da terra do kilt, do whisky, do castelos inimagináveis, dos ventos uivantes, das histórias bizarras sobre fantasmas, do Lago Ness e do fish & chips. Mesmo assim, quando há uma lasquinha de sol, na lasquinha de um dia, ou meio dia, surgem fantasmas esbranquiçados de todos os lados para atropelar o sol.  E correm para a rua, como bichinhos desesperados, presos até então no frio escuro das casas. E Edimburgo muda de cara. O povo de lá se refestela como pode, sem limites de liberdade, pelas gramas verdes, quase artificialmente verdes, de uma cidade brinquedo, uma princesinha medieval! Um vento cortante, constante, gélido atravessa como espada o corpo frágil de quem não conhece aquele frio exasperante daquela gente rude e acostumada com aquele barulho uivante.  E aquele vento tem voz:  solidão-beleza, solidão-arte, história-solidão, solidão... solidão! ...

OUTONO

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Folhas caídas. Vento leviano, irrefletido.   Recupero proveitos do tempo.  Rasgo planos, ganhos, perdas.   Transformo o ritmo.   Prevejo calma. Aquieto o revolto. ... E pego no sono.   (Herta Scarascia) "Deus é o silêncio do universo; e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio…" José Saramago (1922-2010) (Foto: Herta Scarascia)

FUGA

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(Foto: Herta Scarascia) Saíram feito plumagens Das fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento... um tanto inconsciente Da alforria indolente Rompendo paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave e tacanho (Herta Scarascia, 05/11/2015)

PEZZI

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(Foto Herta Scarascia)  Volte e mezza, con un sorriso sul mio viso, la disperazione è stampata all'interno. Nel mondo dell’ombre,  de dolore e de paura, la maggior parte delle cose che provocano nausea (sartreani), sono benvenuta, ma messo fuora, nello spettro solitario del pomeriggio di rami e di sole già sbiadito. E così mi aggrappo al dogma, riti umani, chiamati sovra-umani, in un limbo di luce/l'ombra e di dubbia fede. Non me trovo teorica, ma lontana, irraggiungibile ... e migliaia di volte incostante. Insisto sul fatto che io vedo. Sì, io guardo dentro e io vedo un fantasma, progettato sul una serata dimenticata che insiste per non dormire. Qualcosa di vago, che vive tra l'oscuro delle buio derivante di uno esistenzialismo in ritardo, bloccato per la mancanza di sogni! La donna che vive a me sta lontana.  E in questo luogo, lei invia messaggi urgenti, scrive lettere di liberazione, e urla tra i calci e silenzio.  Le parole... ah... sono ...

FAMÍLIA LINDA

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Lucas, meu primogênito!     Renata, esposa do Lucas e mãe do Bento  Giovanni e eu tentando tirar uma soneca em um colchão sobre a grama em um sítio em pleno Carnaval    Meus pés, que sofreram bullying a vida toda, aqui expostos com orgulho, depois que eu  descobri que eles são é muito lindos!!! 👌👌👌  Giovanni, sempre preso no trabalho. Aqui era Porto Alegre. Foto minha.  Pietro, o veterinário mais montanhista do mundo. Ou o montanhista mais veterinário do planeta. Aqui, escalando um pico de nome imemorável no Peru, tipo 6 mil metros de altura. Estava com a a esposa dele, a Mariana Landis (que tirou a foto).   Dessas fotos que não posso perder nunca. Com meu primogênito, Lucas, que me deu o maior presente do mundo: seu filho, meu neto. ❤  Pietro escando o pico de nome inenarrável, em uma vale também de nome imemorável, no Peru. Vou pedi a ele para me enviar os dados. Aqui, nós q...