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MENINO-JESUS DE RUA

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Fotos: Herta Scarascia Menino de rua Picolé de água suja Arrasta o percalço E carrega a lambuja Rimas tolas fazem rir Impulsionam a querer partir Olho de novo os olhos Que se cruzam Me assusto Susto de quem viu Jesus Logo ali, fora da Cruz De quem viu Jesus na rua De quem viu Jesus-dormindo De quem viu Jesus-menino O menino-Jesus de rua!  (Herta)

ARAME FARPADO

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Foto: Herta Scarascia  Cercada de arames... Farpas sem proteção, mas objeção. Se a fuga é  Ato corajoso, O resultado, em si,  É angustioso. Seiva brotada Em carne e vísceras. Em contrapartida, Esse mal resolvido,  Vida imprudente, Verte sangue de cor decadente, Algo assim, ______ A deter-gente. (Herta)

SÓ UM PACOTE DE BISCOITO

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Olhos negros, grandes, tristes e assustados.  Cabelos despenteados e sem cor definida. Altura? Um metro e dez, por aí. Pele amarronzada. Um tanto frágil e magro demais, talvez sem muita comida.  Ou com pouca comida... Desde que nasceu? Será que houve um nascimento ou é apenas um espectro sofrível, retrato de mais uma cena que insistimos em não ver. Talvez um holograma da nossa própria miséria.  Mas, ó, a imagem falhou! Na minha corrida diária e impensante, com sacolas de “queijos e vinhos”, eu ouço longe, bem ao longe, uma pequena voz como vinda de outro mundo... e veio de outro mundo, uma voz fina, quase apagada, dizendo: - Dona, me dá um pacote de biscoito? Pressa, incômodo, desconforto, confusão e uma leve suspeita de que “o pacote de biscoito de hoje” pode ser a "arma de amanhã” me levam de volta à caverna de Platão, onde as sombras me aliviam com falsas ilusões de uma realidade que não quero ver, nem tampouco aceitar. Eu estava ciente de que ele er...

DOCE ANGEL

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Foto: Herta Scarascia  (show de tango em Buenos Aires) Da boca nua, crua Verdades não ditas Aromas indescritíveis Que só existem na Calle Florida O morno da tarde factual, fatal Dá lugar às utopias que moram dentro de cada um Para todos os tons, matizes Do profundo Vermelho Carmesim   Ao doce Angel Provando o sabor do Brave, da Diva e do Fanfare... Flutuando na loucura do Morange Para desmaiar no Impassione! Sutis, imperceptíveis Ardem, queimam, adoçam, salgam, E contaminam. Dançam! Como loucas meninas de um cabaré Que um dia, iluminado com neon fúcsia,  aconchegavam os desejos proibidos dos  homens velhos, mau amados,  De cigarro, charuto e mentes Igualmente contaminadas Por desejos insanos  Das mulheres, que de vida não tem nada,  Arrancam um sorriso ou outro,  Entre fumaça, música, sonhos, Mas também quimera e fantasia, a despeito de qualquer conto e tanto. E tang...

POBRE FÚCSIA

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Saíram feito plumagens De fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento, um tanto inconsciente Da alforria indolente Romper as paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Pobres, pobres, pobres! Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave, tacanho (Herta,   05/11/2015) Foto: Herta

IDÍLICO

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Suave ondulado Soprado pela brisa preguiçosa da manhã Em azul idílico, sobrevive como um capitão  Nas galés dos navios urbanos (Herta) (Foto: Herta)

OUTONO

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Folhas caídas. Vento leviano, irrefletido.   Recupero proveitos do tempo.  Rasgo planos, ganhos, perdas.   Transformo o ritmo.   Prevejo calma. Aquieto o revolto. ... E pego no sono.   (Herta Scarascia) "Deus é o silêncio do universo; e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio…" José Saramago (1922-2010) (Foto: Herta Scarascia)

PEREGRINO

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Calça o encalço Pista rota Rema renúncia Bancarrota Reparte aflição Celebra paixão Renova pensar Pra de novo Se lixar...  (Foto e letras: Herta)

LENTA E SUAVEMENTE

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Assim escorre a vida Meio lama, meio limpa Meio flor, meio amor Meio paixão Meio ilusão Nasce a findar-se Doce, lenta e suavemente Vai... e vai... Levada assim, meio cegamente Solta, enfim! (Foto e letras: Herta)

O QUE NÃO SOU

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Não busco ajuda. Não quero atenção. Tudo que faço, aos olhos de outros, é falso,  forçado e cansativo Quero, sim, o silêncio Quero me abster de gentes Quero me afastar, feito gata sem cio, da corrente que me prende e me arrasta Quero, sim, me afogar Em suaves doses letais Mordidas doces... hidratos de carbono Quero a distância mais prudente possível Tanto do bem, quanto do mal Quero ficar, quero ir E, silenciosamente, Quero ser o que não sou (Foto e letras: Herta)

GAIOLA

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Fechei os olhos para o mundo Agora já não quero saber Saber, ver, ouvir, compreender, comprar, fazer, trabalhar, suar, vencer ou perder Quem disse que tempo é dinheiro? Coisas de mercenários calvinistas Me sobra esse falar, escondido em letras de computador Minha letra, ah, tão linda, anda errante por conta  Desse metal branco prateado Não, não me drogo. Me drogam. Lítio... Me deram lítio. Eu bebo e como lítio e outros tipos afins. Vivo numa gaiola De ouro, de prata e de bronze. Belo campeonato! Muitas vezes, vejo ferrugem. Então, pode ser que seja de lata mesmo. Mas é uma gaiola cara, viciante e obcecada. Sou, como dizer, uma passarinha errante Que já não sabe o que fazer se puder voar. Pois já cansada, abatida, viciada e inútil. Não sei o que é ser livre. Fui livre. Era bom. Era caro também. Ser livre tem alto preço.  Acaba que não se é mais livre  Ser presa ou ser livre Fui livre, de verdade, enquanto sonha...

NÃO QUERER

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Não quero estar aqui_________                                                                 nem ali. Não quero estar lá___________                                                                      nem acolá. Na verdade, não quero estar. Mais do que isso. Não quer ser. Mais um pouco. Não quero. Me pergunto: por que tantos “nãos quereres”? Não quero mais quereres e não quereres. Quero, agora sim, me desfazer do querer “não querer”. Acho, finalmente, que não quero é querer o não querer saber que quero não querer. Nem ser.  Laing explica! (Herta)             ...