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MISERIA OCCULTA

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Bate nos vidros a aurora, Vem depois a noute escura; E o pobre astro que ali móra, Não abandona a costura! Para uns a vida é d'abrolhos! Para outros mouta de lyrios! Bem o revelam seus olhos, Pisados pelos martyrios! Miseria afugenta tudo! Miseria tem dons funestos! Quem é que gaba o velludo D'aquelles olhos honestos!... Ninguém seus olhos brilhantes Descobre n'essas alturas... E aquellas formas tão puras, E aquellas mãos elegantes! Sempre á costura inclinada! Morra o sol ou surja a lua Nunca vi descer á rua Aquella loura encantada! Aquelle lyrio dobrado Por que assim vive escondido! Eu bem sei!--não tem calçado! E é muito usado o vestido! Por isso não tem porvir Morrerá virgem e nova, E aguarda-a bem cedo a cova... Que eu bem a ouço tossir! Miséria afugenta tudo! Miséria tem dons funestos! Quem é que gaba o veludo D'aquelles olhos honestos! ...

NADA

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Não sou nada. Vim aqui pra nada, mas parir. Pari como pare uma cadela. Cria as crias até que elas se virem. Depois vai, com suas ondas de cios. Se dando aos cães que passam por ela. Assim fui, um tempo... Com um cão, manso, dócil e amigável. Um cão que me deu pão, carinho e atenção. Me aconchegou. Mas cadela é cadela. E só deixa o cio quando chega o tempo. Meu cio se foi faz tempo.  Outono da vida ____ Em breve, muito em breve, inverno. E, finalmente... o esperado NADA. Quero o NADA. NADA em pleno outono. Viver o NADA é pleno. NADA, agora, é nada mesmo. Nada de nada. Nada de tudo e tudo de nada. Uma bola enorme, vazia, etérea e efêmera. Como um útero inverso acolhendo o meu. Delicioso, prazeroso, silencioso e absoluto_____________________________________                                                     ...

LÁGRIMAS CORROSIVAS

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(Foto: Herta Scarascia)  Tem sido assim Quando o  sol clareia, brando... E adormece,   crepuscular E a Lua vem tentando suavizar meu rosto molhado de lágrima Medito sobre a vida Maldito mundo sem sentido Lágrimas, suplico a cada gota Não queime tanto minha face Sim, prefiro lágrimas geladas a essas corrosivas E tanto sei que são desperdiçadas... vã tentativa de aliviar Um martírio interior, vivido no âmago do meu ser Um ser, assim, tão complicado, tão denso e tão intenso E eu odeio tudo isso. Como eu odeio Sentir a tortura seguida da amargura do não saber mais Não quero piedosas ações ou blefes de palavras vãs Prefiro arder no inferno de Dante a me deleitar no céu de Santo Amaro Talvez aceite o humor melancólico de Charlie Brown... ou uma noitada de ócio intelectual, mergulhada em gargalhadas eufóricas em vino veritas ... com uma pitada a mais da minha doce loucura Ah! Mas a luta (inglória) com o que não quero ver queima minh´a...