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CENTELHA DE FINITUDE

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Foto: Herta Existem momentos, lugares, ares... Um tipo tal de centelha   Que faz sorrir almas singulares Que dá liga entre doce de leite e melancia  Pra dizer "oi" às formigas com saúde  E calma e ternamente entregar-se à finitude.  (Herta)

SOMBRAS RASANTES

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Sinto algum tipo de sombra Mas talvez não seja sombra Sinto o vento cortar minh'alma  De algum verão perdido no tempo Como o ar que não chega ao peito Ou o peito que não se inclina à luz Luz de festa quando a alma voa São tombos de esperanças vãs Voos rasantes onde as perdas são penas Penas de aves, de flores, de cores De aflição de mente que mente São sombras que dançam na noite E é certo que trouxeram perdas  Pois busco, busco...  e não sinto mais aquele ar no meu peito! (Herta, 08/06/2017)

MENINO-JESUS DE RUA

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Fotos: Herta Scarascia Menino de rua Picolé de água suja Arrasta o percalço E carrega a lambuja Rimas tolas fazem rir Impulsionam a querer partir Olho de novo os olhos Que se cruzam Me assusto Susto de quem viu Jesus Logo ali, fora da Cruz De quem viu Jesus na rua De quem viu Jesus-dormindo De quem viu Jesus-menino O menino-Jesus de rua!  (Herta)

NAS TERRAS NUAS DAS MINAS

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Fotos: Herta Scarascia Em direção ao sol Comendo e bebendo poeira Na dança frenética das curvas das Minas Sinto o cheiro do pó d'alma roceira Em dias vermelhos, assim, cor de chama que chama Ouço a saudade que, assim como o sol, Sempre vai... e volta... e vai... (Herta)

DOCE ANGEL

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Foto: Herta Scarascia  (show de tango em Buenos Aires) Da boca nua, crua Verdades não ditas Aromas indescritíveis Que só existem na Calle Florida O morno da tarde factual, fatal Dá lugar às utopias que moram dentro de cada um Para todos os tons, matizes Do profundo Vermelho Carmesim   Ao doce Angel Provando o sabor do Brave, da Diva e do Fanfare... Flutuando na loucura do Morange Para desmaiar no Impassione! Sutis, imperceptíveis Ardem, queimam, adoçam, salgam, E contaminam. Dançam! Como loucas meninas de um cabaré Que um dia, iluminado com neon fúcsia,  aconchegavam os desejos proibidos dos  homens velhos, mau amados,  De cigarro, charuto e mentes Igualmente contaminadas Por desejos insanos  Das mulheres, que de vida não tem nada,  Arrancam um sorriso ou outro,  Entre fumaça, música, sonhos, Mas também quimera e fantasia, a despeito de qualquer conto e tanto. E tang...

POBRE FÚCSIA

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Saíram feito plumagens De fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento, um tanto inconsciente Da alforria indolente Romper as paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Pobres, pobres, pobres! Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave, tacanho (Herta,   05/11/2015) Foto: Herta

GOTA DE PESSOA

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Foto: Herta Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta.  Não é o que estou chorando.  O que choro é diferente.  Entra mais na alma da alma.  Mas como, no céu sem gente,  A nuvem flutua calma.  E isto lembra uma tristeza  E a lembrança é que entristece,  Dou à saudade a riqueza  De emoção que a hora tece.  Mas, em verdade, o que chora  Na minha amarga ansiedade  Mais alto que a nuvem mora,  Está para além da saudade.  Não sei o que é nem consinto  À alma que o saiba bem.  Visto da dor com que minto  Dor que a minha alma tem.  Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"  

IDÍLICO

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Suave ondulado Soprado pela brisa preguiçosa da manhã Em azul idílico, sobrevive como um capitão  Nas galés dos navios urbanos (Herta) (Foto: Herta)

OUTONO

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Folhas caídas. Vento leviano, irrefletido.   Recupero proveitos do tempo.  Rasgo planos, ganhos, perdas.   Transformo o ritmo.   Prevejo calma. Aquieto o revolto. ... E pego no sono.   (Herta Scarascia) "Deus é o silêncio do universo; e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio…" José Saramago (1922-2010) (Foto: Herta Scarascia)

FUGA

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(Foto: Herta Scarascia) Saíram feito plumagens Das fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento... um tanto inconsciente Da alforria indolente Rompendo paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave e tacanho (Herta Scarascia, 05/11/2015)

PEREGRINO

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Calça o encalço Pista rota Rema renúncia Bancarrota Reparte aflição Celebra paixão Renova pensar Pra de novo Se lixar...  (Foto e letras: Herta)

LENTA E SUAVEMENTE

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Assim escorre a vida Meio lama, meio limpa Meio flor, meio amor Meio paixão Meio ilusão Nasce a findar-se Doce, lenta e suavemente Vai... e vai... Levada assim, meio cegamente Solta, enfim! (Foto e letras: Herta)

O QUE NÃO SOU

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Não busco ajuda. Não quero atenção. Tudo que faço, aos olhos de outros, é falso,  forçado e cansativo Quero, sim, o silêncio Quero me abster de gentes Quero me afastar, feito gata sem cio, da corrente que me prende e me arrasta Quero, sim, me afogar Em suaves doses letais Mordidas doces... hidratos de carbono Quero a distância mais prudente possível Tanto do bem, quanto do mal Quero ficar, quero ir E, silenciosamente, Quero ser o que não sou (Foto e letras: Herta)

GAIOLA

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Fechei os olhos para o mundo Agora já não quero saber Saber, ver, ouvir, compreender, comprar, fazer, trabalhar, suar, vencer ou perder Quem disse que tempo é dinheiro? Coisas de mercenários calvinistas Me sobra esse falar, escondido em letras de computador Minha letra, ah, tão linda, anda errante por conta  Desse metal branco prateado Não, não me drogo. Me drogam. Lítio... Me deram lítio. Eu bebo e como lítio e outros tipos afins. Vivo numa gaiola De ouro, de prata e de bronze. Belo campeonato! Muitas vezes, vejo ferrugem. Então, pode ser que seja de lata mesmo. Mas é uma gaiola cara, viciante e obcecada. Sou, como dizer, uma passarinha errante Que já não sabe o que fazer se puder voar. Pois já cansada, abatida, viciada e inútil. Não sei o que é ser livre. Fui livre. Era bom. Era caro também. Ser livre tem alto preço.  Acaba que não se é mais livre  Ser presa ou ser livre Fui livre, de verdade, enquanto sonha...

VENTANIA

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~~~ventania~~~ desejo fantasia rompe tempo golpeia ilusão roda anarquia linha contramão tormenta... desejo explosão corpo temporão morre idílio chega hora retorno exílio (poema e foto: Herta Scarascia,  19/10/2015)

NADA

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Não sou nada. Vim aqui pra nada, mas parir. Pari como pare uma cadela. Cria as crias até que elas se virem. Depois vai, com suas ondas de cios. Se dando aos cães que passam por ela. Assim fui, um tempo... Com um cão, manso, dócil e amigável. Um cão que me deu pão, carinho e atenção. Me aconchegou. Mas cadela é cadela. E só deixa o cio quando chega o tempo. Meu cio se foi faz tempo.  Outono da vida ____ Em breve, muito em breve, inverno. E, finalmente... o esperado NADA. Quero o NADA. NADA em pleno outono. Viver o NADA é pleno. NADA, agora, é nada mesmo. Nada de nada. Nada de tudo e tudo de nada. Uma bola enorme, vazia, etérea e efêmera. Como um útero inverso acolhendo o meu. Delicioso, prazeroso, silencioso e absoluto_____________________________________                                                     ...