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O CANTADOR DE POEMAS

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Foto: Herta Scarascia Pinta o rosto Cobre o corpo de letras Em mais uma noite quente  Nordestina e influente Ouço alto a sua  verdade Cantada em tons de liberdade (Herta)

VOO IMPERFEITO

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Foto: Herta Imperfeita... Vi-me, então, assim, malfeita. E erro. E depois, erro um pouco mais. Tentativas são como vidro, Melindrosas lâminas de olhar-anidro, Tortuosos caminhos, Abandonados ninhos Pisados a pés nus, Frouxos caniços e voos de urubus. Nas aventuras, desventuras. No perdão, uma via contramão. ... e a dor é sempre voo de incompreensão. (Herta)

MENINA

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 Foto: Herta Passei correndo, menina, E vi você, Sentada, sozinha, Esperando não sei quê. Desfocada ficou, Como desfocada é minha visão Da sua vida, da minha vida, da nossa vida. Um pouco de mim está com você, ali, sentada, sozinha; E muito de você está em mim, aqui, sentada, sozinha. (Herta)

HAIKAI DA PAZ

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Foto: Herta Dançar infinito Sorrir existência Brincar criança Sonhar alma Existir natureza (Herta)

NAS TERRAS NUAS DAS MINAS

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Fotos: Herta Scarascia Em direção ao sol Comendo e bebendo poeira Na dança frenética das curvas das Minas Sinto o cheiro do pó d'alma roceira Em dias vermelhos, assim, cor de chama que chama Ouço a saudade que, assim como o sol, Sempre vai... e volta... e vai... (Herta)

ARAME FARPADO

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Foto: Herta Scarascia  Cercada de arames... Farpas sem proteção, mas objeção. Se a fuga é  Ato corajoso, O resultado, em si,  É angustioso. Seiva brotada Em carne e vísceras. Em contrapartida, Esse mal resolvido,  Vida imprudente, Verte sangue de cor decadente, Algo assim, ______ A deter-gente. (Herta)

SÓ UM PACOTE DE BISCOITO

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Olhos negros, grandes, tristes e assustados.  Cabelos despenteados e sem cor definida. Altura? Um metro e dez, por aí. Pele amarronzada. Um tanto frágil e magro demais, talvez sem muita comida.  Ou com pouca comida... Desde que nasceu? Será que houve um nascimento ou é apenas um espectro sofrível, retrato de mais uma cena que insistimos em não ver. Talvez um holograma da nossa própria miséria.  Mas, ó, a imagem falhou! Na minha corrida diária e impensante, com sacolas de “queijos e vinhos”, eu ouço longe, bem ao longe, uma pequena voz como vinda de outro mundo... e veio de outro mundo, uma voz fina, quase apagada, dizendo: - Dona, me dá um pacote de biscoito? Pressa, incômodo, desconforto, confusão e uma leve suspeita de que “o pacote de biscoito de hoje” pode ser a "arma de amanhã” me levam de volta à caverna de Platão, onde as sombras me aliviam com falsas ilusões de uma realidade que não quero ver, nem tampouco aceitar. Eu estava ciente de que ele er...

DOCE ANGEL

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Foto: Herta Scarascia  (show de tango em Buenos Aires) Da boca nua, crua Verdades não ditas Aromas indescritíveis Que só existem na Calle Florida O morno da tarde factual, fatal Dá lugar às utopias que moram dentro de cada um Para todos os tons, matizes Do profundo Vermelho Carmesim   Ao doce Angel Provando o sabor do Brave, da Diva e do Fanfare... Flutuando na loucura do Morange Para desmaiar no Impassione! Sutis, imperceptíveis Ardem, queimam, adoçam, salgam, E contaminam. Dançam! Como loucas meninas de um cabaré Que um dia, iluminado com neon fúcsia,  aconchegavam os desejos proibidos dos  homens velhos, mau amados,  De cigarro, charuto e mentes Igualmente contaminadas Por desejos insanos  Das mulheres, que de vida não tem nada,  Arrancam um sorriso ou outro,  Entre fumaça, música, sonhos, Mas também quimera e fantasia, a despeito de qualquer conto e tanto. E tang...

GOTA DE PESSOA

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Foto: Herta Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta.  Não é o que estou chorando.  O que choro é diferente.  Entra mais na alma da alma.  Mas como, no céu sem gente,  A nuvem flutua calma.  E isto lembra uma tristeza  E a lembrança é que entristece,  Dou à saudade a riqueza  De emoção que a hora tece.  Mas, em verdade, o que chora  Na minha amarga ansiedade  Mais alto que a nuvem mora,  Está para além da saudade.  Não sei o que é nem consinto  À alma que o saiba bem.  Visto da dor com que minto  Dor que a minha alma tem.  Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"  

IDÍLICO

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Suave ondulado Soprado pela brisa preguiçosa da manhã Em azul idílico, sobrevive como um capitão  Nas galés dos navios urbanos (Herta) (Foto: Herta)

OUTONO

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Folhas caídas. Vento leviano, irrefletido.   Recupero proveitos do tempo.  Rasgo planos, ganhos, perdas.   Transformo o ritmo.   Prevejo calma. Aquieto o revolto. ... E pego no sono.   (Herta Scarascia) "Deus é o silêncio do universo; e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio…" José Saramago (1922-2010) (Foto: Herta Scarascia)

PEREGRINO

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Calça o encalço Pista rota Rema renúncia Bancarrota Reparte aflição Celebra paixão Renova pensar Pra de novo Se lixar...  (Foto e letras: Herta)

LENTA E SUAVEMENTE

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Assim escorre a vida Meio lama, meio limpa Meio flor, meio amor Meio paixão Meio ilusão Nasce a findar-se Doce, lenta e suavemente Vai... e vai... Levada assim, meio cegamente Solta, enfim! (Foto e letras: Herta)

GAIOLA

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Fechei os olhos para o mundo Agora já não quero saber Saber, ver, ouvir, compreender, comprar, fazer, trabalhar, suar, vencer ou perder Quem disse que tempo é dinheiro? Coisas de mercenários calvinistas Me sobra esse falar, escondido em letras de computador Minha letra, ah, tão linda, anda errante por conta  Desse metal branco prateado Não, não me drogo. Me drogam. Lítio... Me deram lítio. Eu bebo e como lítio e outros tipos afins. Vivo numa gaiola De ouro, de prata e de bronze. Belo campeonato! Muitas vezes, vejo ferrugem. Então, pode ser que seja de lata mesmo. Mas é uma gaiola cara, viciante e obcecada. Sou, como dizer, uma passarinha errante Que já não sabe o que fazer se puder voar. Pois já cansada, abatida, viciada e inútil. Não sei o que é ser livre. Fui livre. Era bom. Era caro também. Ser livre tem alto preço.  Acaba que não se é mais livre  Ser presa ou ser livre Fui livre, de verdade, enquanto sonha...

NÃO QUERER

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Não quero estar aqui_________                                                                 nem ali. Não quero estar lá___________                                                                      nem acolá. Na verdade, não quero estar. Mais do que isso. Não quer ser. Mais um pouco. Não quero. Me pergunto: por que tantos “nãos quereres”? Não quero mais quereres e não quereres. Quero, agora sim, me desfazer do querer “não querer”. Acho, finalmente, que não quero é querer o não querer saber que quero não querer. Nem ser.  Laing explica! (Herta)             ...