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SORRIR NUM PAÍS CAÓTICO

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Meus anjos que fazem rir   Tenho percebido que não rio mais. Rir por rir mesmo, e muito, de gargalhada solta, sorriso fácil, como eu ria antes. Um sorriso autêntico, sem muito pensar. E eu ria muito, de perder o ar.  Agora, o riso deu lugar a um outro tipo de riso, mais calmo, mais tranquilo, mais introspectivo, vivendo numa penumbra de risadas silenciosas em momentos especiais nos quais, em todos os casos, estão os filhos dos meus filhos, meus netos. E também meus filhos. E noras.  Mas os meus netos, ainda tão pequenos, me arrancam sorrisos estranhos, me deixam perplexa!  Que figuras interessantes! De incoerências lógicas, de absurdos justos, de descobertas intrigantes e magnéticas! Eles me fazem rir e gargalhar, numa fabulação sincera e numa calma que só agora percebo a confusão de acordes sonantes e dissonantes dentro da minha mente já borrada de alvoroços de miúdos.  Ainda chega a miúda, ora bebezinha, já com seus alaridos burlescos e harmoniosos. Cheia...

E AGORA?

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E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? Você que é sem nome, que zomba dos outros, Você que faz versos, que ama, protesta? e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, - e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais! José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse, a valsa vienense, ...

PODRES PODERES

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Web "Enquanto os homens exercem seus podres poderes Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos E perdem os verdes Somos uns boçais Queria querer gritar setecentas mil vezes Como são lindos, como são lindos os burgueses E os japoneses Mas tudo é muito mais Será que nunca faremos senão confirmar A incompetência da América católica/evangélica Que sempre precisará de ridículos tiranos? Será, será que será que será que será Será que essa minha estúpida retórica Terá que soar, terá que se ouvir Por mais zil anos? Enquanto os homens exercem seus podres poderes Índios e padres e bichas, negros e mulheres E adolescentes fazem o carnaval Queria querer cantar afinado com Elis Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase Ser indecente Mas tudo é muito mau" Intérprete – Caetano Veloso Compositor – Caetano Veloso Ano de divulgação – 1984 Álbum – Velô A música de Caetano Veloso mostra um excelente campo de análise interpretativa quanto...

GAIOLA

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Fechei os olhos para o mundo Agora já não quero saber Saber, ver, ouvir, compreender, comprar, fazer, trabalhar, suar, vencer ou perder Quem disse que tempo é dinheiro? Coisas de mercenários calvinistas Me sobra esse falar, escondido em letras de computador Minha letra, ah, tão linda, anda errante por conta  Desse metal branco prateado Não, não me drogo. Me drogam. Lítio... Me deram lítio. Eu bebo e como lítio e outros tipos afins. Vivo numa gaiola De ouro, de prata e de bronze. Belo campeonato! Muitas vezes, vejo ferrugem. Então, pode ser que seja de lata mesmo. Mas é uma gaiola cara, viciante e obcecada. Sou, como dizer, uma passarinha errante Que já não sabe o que fazer se puder voar. Pois já cansada, abatida, viciada e inútil. Não sei o que é ser livre. Fui livre. Era bom. Era caro também. Ser livre tem alto preço.  Acaba que não se é mais livre  Ser presa ou ser livre Fui livre, de verdade, enquanto sonha...

NADA

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Não sou nada. Vim aqui pra nada, mas parir. Pari como pare uma cadela. Cria as crias até que elas se virem. Depois vai, com suas ondas de cios. Se dando aos cães que passam por ela. Assim fui, um tempo... Com um cão, manso, dócil e amigável. Um cão que me deu pão, carinho e atenção. Me aconchegou. Mas cadela é cadela. E só deixa o cio quando chega o tempo. Meu cio se foi faz tempo.  Outono da vida ____ Em breve, muito em breve, inverno. E, finalmente... o esperado NADA. Quero o NADA. NADA em pleno outono. Viver o NADA é pleno. NADA, agora, é nada mesmo. Nada de nada. Nada de tudo e tudo de nada. Uma bola enorme, vazia, etérea e efêmera. Como um útero inverso acolhendo o meu. Delicioso, prazeroso, silencioso e absoluto_____________________________________                                                     ...

Essa gente maravilhosa do Nordeste. Fotos de Herta Scarascia

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