O MENINO E A CATURRITA
(Foto: Herta Scarascia)
Nesses recantos, onde o fogão a lenha fica aceso o dia todinho esperando, quiçá, um vizinho se achegá prum dedo de prosa... Nesses refúgios entre a mata e a mata, entre as montanhas e as montanhas, onde a vista se perde em meio ao verde... e são tantos... há também muito a ver, a sentir, a viver!
Os verdes me encantam. Ultrapassam o número de nuances ditadas como existentes.
Verde é tudo. E tudo é verde.
Verde também é a caturrita do menino em meio ao verde da casinha verde onde moram na Serra do Brigadeiro.
Dona Rita, mãe do pequeno, me contou que queria pintar as paredes de dentro da casa de verde. Por quê? Ela acha bonito.
Mal sabe ela o poder do verde. Verde é suave e energético.
Relaxa sem dar preguiça.
Verde é abacate, é grama, é menta, é mato, é energia. É esperança, é descanso, é passarinho, é beleza. É rede, é o mar de Alagoas, é viagem, é refúgio.
E não é que eu vejo verde nos enormes olhos pretos de jabuticaba do menino da caturrita?
Verde-amarelo era sua camisa, e toda verde era a caturrita, em sorriso verde-luz, em grande amor verde-bemol.
Flauta combina com passarinhos. E pássaros dançam com música.
A caturrita é livre, mas não se importa. Quer ficar onde recebe o colo da criançada.
Essa mãozinha que afaga, que cuida, que acaricia a pequena ave transforma o mundo de voo e caça da menina-bicho em algo não natural.
Ela se regozija, se esbalda, levanta e bate as asas, mostrando uma confiança e um amor que não se vê entre os humanos.
O menino, ah, o menino cuida, alimenta, aquece, brinca... e sorri, como se a caturrita fosse uma criança a mais na ciranda. E é.
No mundo escondidinho lá dentro da Serra do Brigadeiro, magias como essa só são estragadas quando gente como nós chegamos.
Mas a caturrita não se incomodou comigo, só no início. Não gostou da minha câmera. Bichos não têm ego. Pra que essa coisa grande pra cima de mim, sua dona?
E o menino agiu exatamente igual. Ele também não sabe o que é ego, o que é ser fotografado e ficar se mostrando pro mundo.
Ao contrário, todos os menininhos se escondiam quando eu apontava a câmera. Não querer aparecer significa "deixa eu no meu mundo", sua dona.
E o mundo dos dois estava completo, feliz!
E eu senti uma vontade enorme de ter uma caminha ali, na casa da dona Rita. Uma caminha que fosse minha pra eu poder dormir naquele frio, naquele verde, naquele clima, naquele ambiente, no meio daquela gente que não sabe e nem se importa com mais nada que não seja plantar, comer, sobreviver. Os meninos vão à escola, sim, senhor. Mas todos os meninos são como a caturrita. E voltam logo pra casa pra brincar de caturrita, de cachorro, de gato, de bola de pano, de subir em árvore e de tudo que é tão longe do mundo dos meninos da cidade.
E então, antes das oito, todos já estão limpinhos, de pijama e prontinhos para dormir. E dona Rita e o marido já descansam o corpo para fechar a jornada de um dia. Um dia de filharada, caturritas, fogão a lenha, escola, banho, mais comida e.... e... essa é a vida, toda embrulhada num enorme papel brilhante de cor verde.
Eu quero viver ali!
(Herta Scarascia)

Todos levamos esse cantinho em nós. Procure fundo e encontrará. Desconheço onde fica esse lugar porque ele muda em nossa alma. Só sei que não fica nos extremos. Fica sempre onde nos matemos afastados, na paz de sermos apenas nós mesmos… assim podemos partilhar o pão.
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