DIA CINZA EM EDIMBURGO

(Foto: Herta Scarascia)


Sol, sol mesmo, só quando o verão resolve premiar os moradores da terra do kilt, do whisky, do castelos inimagináveis, dos ventos uivantes, das histórias bizarras sobre fantasmas, do Lago Ness e do fish & chips.

Mesmo assim, quando há uma lasquinha de sol, na lasquinha de um dia, ou meio dia, surgem fantasmas esbranquiçados de todos os lados para atropelar o sol. 

E correm para a rua, como bichinhos desesperados, presos até então no frio escuro das casas.
E Edimburgo muda de cara.

O povo de lá se refestela como pode, sem limites de liberdade, pelas gramas verdes, quase artificialmente verdes, de uma cidade brinquedo, uma princesinha medieval!

Um vento cortante, constante, gélido atravessa como espada o corpo frágil de quem não conhece aquele frio exasperante daquela gente rude e acostumada com aquele barulho uivante. 

E aquele vento tem voz:  solidão-beleza, solidão-arte, história-solidão, solidão... solidão! 

Passei e avistei de cara
A cara do homem; 
Exausto da lida-solidão.

E no rosto, junto com tudo isso, o tipo homeless tem um leve ar de desdém, pitada de susto, nenhum grau de fome, mas um bocado de indiferença, cinismo e aquela velha ironia dos bretões. 
 Bem, daqueles que souberam sobreviver.

Talvez um gole, ou dois, ou a garrafa toda faz levar longe a angústia.
Disso eles entendem.

Ao lado, corpos "acrilicados" 
Nus em pelo pelo calor que, como presente dos deuses nórdicos, aparece sem anunciar. 

Mulheres de todas as idades põem as tetas pra fora, como se a beleza de expô-las as tornassem mais belas (ou dignas).

Homens sem camisetas, sem calças, gozando o sol (ou meio sol) algo que lembra luz (ou meia luz) e esparramados, felizes e desconectados
de realidades tão próximas, se fazem entender como gente que tem direito ao sol... e à sombra.

E todos vagueiam pela Princess Street... 
Como se a "Rua da Princesa" fosse a calçada de Copacabana, sem mar, sem samba, sem bossa nova. 

Esse povo gosta de silêncio.
Eu também!

Ei, você, boneco de cera, boneco de vida,

O que pra nós é bizarro pra você tem sido sua vida. 

(Herta)






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