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EM BUSCA DA LUZ

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Foto: Herta Scarascia Estamos todos na mesma nau Na tempestade, na bonança, nos sonhos e desvarios Não sabemos nada de nós, de vós, de todos E, assim, errantes, voamos claudicantes Meio cegos, olhos enormes buscando direções Como insetos em busca da luz  (Herta)

MENINA

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 Foto: Herta Passei correndo, menina, E vi você, Sentada, sozinha, Esperando não sei quê. Desfocada ficou, Como desfocada é minha visão Da sua vida, da minha vida, da nossa vida. Um pouco de mim está com você, ali, sentada, sozinha; E muito de você está em mim, aqui, sentada, sozinha. (Herta)

CENTELHA DE FINITUDE

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Foto: Herta Existem momentos, lugares, ares... Um tipo tal de centelha   Que faz sorrir almas singulares Que dá liga entre doce de leite e melancia  Pra dizer "oi" às formigas com saúde  E calma e ternamente entregar-se à finitude.  (Herta)

SOMBRAS RASANTES

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Sinto algum tipo de sombra Mas talvez não seja sombra Sinto o vento cortar minh'alma  De algum verão perdido no tempo Como o ar que não chega ao peito Ou o peito que não se inclina à luz Luz de festa quando a alma voa São tombos de esperanças vãs Voos rasantes onde as perdas são penas Penas de aves, de flores, de cores De aflição de mente que mente São sombras que dançam na noite E é certo que trouxeram perdas  Pois busco, busco...  e não sinto mais aquele ar no meu peito! (Herta, 08/06/2017)

MENINO-JESUS DE RUA

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Fotos: Herta Scarascia Menino de rua Picolé de água suja Arrasta o percalço E carrega a lambuja Rimas tolas fazem rir Impulsionam a querer partir Olho de novo os olhos Que se cruzam Me assusto Susto de quem viu Jesus Logo ali, fora da Cruz De quem viu Jesus na rua De quem viu Jesus-dormindo De quem viu Jesus-menino O menino-Jesus de rua!  (Herta)

NAS TERRAS NUAS DAS MINAS

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Fotos: Herta Scarascia Em direção ao sol Comendo e bebendo poeira Na dança frenética das curvas das Minas Sinto o cheiro do pó d'alma roceira Em dias vermelhos, assim, cor de chama que chama Ouço a saudade que, assim como o sol, Sempre vai... e volta... e vai... (Herta)

ARAME FARPADO

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Foto: Herta Scarascia  Cercada de arames... Farpas sem proteção, mas objeção. Se a fuga é  Ato corajoso, O resultado, em si,  É angustioso. Seiva brotada Em carne e vísceras. Em contrapartida, Esse mal resolvido,  Vida imprudente, Verte sangue de cor decadente, Algo assim, ______ A deter-gente. (Herta)

PALAVRAS

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Palavras.  Apenas. Palavras escritas não têm  flex ã o. Podem ser elo de liga çã o, de desliga çã o. Um poema. Tolo, livre, perdido, profundo.  E até mesmo um haicai .   Podem, livremente, ir e vir.  Palavras. Inócuas, profundas, marcantes, tocantes. Azuis, amarelas, quadradas, enquadradas.   C astelos, de areia ou de mármore – de Carrara ou de qualquer barraco . Discorrem pontes ao infinito.  Tornando o piso escorregadio.   Transformam pedras onde havia areia. Tampam a luz que jazia insone sobre o travesseiro.   Perdem-se no eterno inconsciente,  Alagando a pista da vida cansada. Palavras, palavras... vomitadas ao léu, como estas, que saem quente feito um fogaréu.  Ou frias, sem sentido, como picolé de chuchu.  No princípio, dizem, era o Verbo... e o que fizemos com o Verbo?   Ah, sim! Estamos conjugando. Eu, tu, ele, nós, vó...

DOCE ANGEL

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Foto: Herta Scarascia  (show de tango em Buenos Aires) Da boca nua, crua Verdades não ditas Aromas indescritíveis Que só existem na Calle Florida O morno da tarde factual, fatal Dá lugar às utopias que moram dentro de cada um Para todos os tons, matizes Do profundo Vermelho Carmesim   Ao doce Angel Provando o sabor do Brave, da Diva e do Fanfare... Flutuando na loucura do Morange Para desmaiar no Impassione! Sutis, imperceptíveis Ardem, queimam, adoçam, salgam, E contaminam. Dançam! Como loucas meninas de um cabaré Que um dia, iluminado com neon fúcsia,  aconchegavam os desejos proibidos dos  homens velhos, mau amados,  De cigarro, charuto e mentes Igualmente contaminadas Por desejos insanos  Das mulheres, que de vida não tem nada,  Arrancam um sorriso ou outro,  Entre fumaça, música, sonhos, Mas também quimera e fantasia, a despeito de qualquer conto e tanto. E tang...

POBRE FÚCSIA

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Saíram feito plumagens De fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento, um tanto inconsciente Da alforria indolente Romper as paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Pobres, pobres, pobres! Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave, tacanho (Herta,   05/11/2015) Foto: Herta

GOTA DE PESSOA

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Foto: Herta Vai uma nuvem errando. O meu passado não volta.  Não é o que estou chorando.  O que choro é diferente.  Entra mais na alma da alma.  Mas como, no céu sem gente,  A nuvem flutua calma.  E isto lembra uma tristeza  E a lembrança é que entristece,  Dou à saudade a riqueza  De emoção que a hora tece.  Mas, em verdade, o que chora  Na minha amarga ansiedade  Mais alto que a nuvem mora,  Está para além da saudade.  Não sei o que é nem consinto  À alma que o saiba bem.  Visto da dor com que minto  Dor que a minha alma tem.  Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"  

IDÍLICO

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Suave ondulado Soprado pela brisa preguiçosa da manhã Em azul idílico, sobrevive como um capitão  Nas galés dos navios urbanos (Herta) (Foto: Herta)

OUTONO

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Folhas caídas. Vento leviano, irrefletido.   Recupero proveitos do tempo.  Rasgo planos, ganhos, perdas.   Transformo o ritmo.   Prevejo calma. Aquieto o revolto. ... E pego no sono.   (Herta Scarascia) "Deus é o silêncio do universo; e o homem, o grito que dá sentido a esse silêncio…" José Saramago (1922-2010) (Foto: Herta Scarascia)

FUGA

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(Foto: Herta Scarascia) Saíram feito plumagens Das fenestras que parecem imagens Também na clausura, espero No ócio lento... um tanto inconsciente Da alforria indolente Rompendo paredes tortas Diferentes e indiferentes Amigas de tempos intransigentes Na hora primeira, ânsia Na segunda, um leve tom fúcsia Já no final, um borrado estranho Bege, suave e tacanho (Herta Scarascia, 05/11/2015)

PEREGRINO

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Calça o encalço Pista rota Rema renúncia Bancarrota Reparte aflição Celebra paixão Renova pensar Pra de novo Se lixar...  (Foto e letras: Herta)

GAIOLA

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Fechei os olhos para o mundo Agora já não quero saber Saber, ver, ouvir, compreender, comprar, fazer, trabalhar, suar, vencer ou perder Quem disse que tempo é dinheiro? Coisas de mercenários calvinistas Me sobra esse falar, escondido em letras de computador Minha letra, ah, tão linda, anda errante por conta  Desse metal branco prateado Não, não me drogo. Me drogam. Lítio... Me deram lítio. Eu bebo e como lítio e outros tipos afins. Vivo numa gaiola De ouro, de prata e de bronze. Belo campeonato! Muitas vezes, vejo ferrugem. Então, pode ser que seja de lata mesmo. Mas é uma gaiola cara, viciante e obcecada. Sou, como dizer, uma passarinha errante Que já não sabe o que fazer se puder voar. Pois já cansada, abatida, viciada e inútil. Não sei o que é ser livre. Fui livre. Era bom. Era caro também. Ser livre tem alto preço.  Acaba que não se é mais livre  Ser presa ou ser livre Fui livre, de verdade, enquanto sonha...