SORRIR NUM PAÍS CAÓTICO
Meus anjos que fazem rir
Tenho percebido que não rio mais. Rir por rir mesmo, e muito, de gargalhada solta, sorriso fácil, como eu ria antes. Um sorriso autêntico, sem muito pensar. E eu ria muito, de perder o ar.
Agora, o riso deu lugar a um outro tipo de riso, mais calmo, mais tranquilo, mais introspectivo, vivendo numa penumbra de risadas silenciosas em momentos especiais nos quais, em todos os casos, estão os filhos dos meus filhos, meus netos. E também meus filhos. E noras.
Mas os meus netos, ainda tão pequenos, me arrancam sorrisos estranhos, me deixam perplexa!
Que figuras interessantes! De incoerências lógicas, de absurdos justos, de descobertas intrigantes e magnéticas! Eles me fazem rir e gargalhar, numa fabulação sincera e numa calma que só agora percebo a confusão de acordes sonantes e dissonantes dentro da minha mente já borrada de alvoroços de miúdos.
Ainda chega a miúda, ora bebezinha, já com seus alaridos burlescos e harmoniosos. Cheia de lacinhos e charminho feminino.
Estes, chamados risos de felicidade, são os únicos que, nestes tempos de "cólera", onde se misturam morte, ódio, fome e loucura, decorrentes, no Brasil, da ação clara do Mal, gesticulado por mãos ignóbeis e psicopatas, movem os músculos do meu rosto, trazendo lembranças fortes de vigor e de esperança.
Meus filhos, quando crianças, também me traziam essa magia, uma alegria que vai além do entendimento. Mas hoje eles já são adultos e, como tais, já sentem o peso da vida, principalmente quando a vida deles, no auge da produção, está cercada por um governo roto e tresloucado.
Somente no universo infantil, desprovido de medos e angústias, podemos encontrar um paraíso alienado.
Fora isso, existe uma alegria, mais escondida, que mora no silêncio.
E é neste momento que eu paro de tentar entender o mundo para que o sorriso da paz, tão efêmero, me visite com seus últimos suspiros do dia.
(Fotos e texto: Herta Scarascia)















Apenas um reparo: o universo infantil está longe de ser alienado. Ele é altamente interessado no foco da brincadeira do momento. No mais, essa angústia e tristeza faz parte da fotografia de um país entristecido e alijado dos direitos fundamentais. Bom texto.
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