PODRES PODERES
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"Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Motos e fuscas avançam os sinais vermelhos
E perdem os verdes
Somos uns boçais
E perdem os verdes
Somos uns boçais
Queria querer gritar setecentas mil vezes
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais
Como são lindos, como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais
Será que nunca faremos senão confirmar
A incompetência da América católica/evangélica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
A incompetência da América católica/evangélica
Que sempre precisará de ridículos tiranos?
Será, será que será que será que será
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?
Será que essa minha estúpida retórica
Terá que soar, terá que se ouvir
Por mais zil anos?
Enquanto os homens exercem seus podres poderes
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Índios e padres e bichas, negros e mulheres
E adolescentes fazem o carnaval
Queria querer cantar afinado com Elis
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau"
Silenciar em respeito ao seu transe, num êxtase
Ser indecente
Mas tudo é muito mau"
Intérprete – Caetano Veloso
Compositor – Caetano Veloso
Ano de divulgação – 1984
Álbum – Velô
A música de Caetano Veloso mostra um excelente campo de análise interpretativa quanto ao cenário da política brasileira e do contexto o qual se encontrava na ocasião do processo de redemocratização. No título “Podres Poderes" há uma referência aos modelos políticos vigentes.
Na década de 80, o contexto internacional estava conturbado e turbulento.
O socialismo soviético estava passando por momento de crise. As políticas da Perestroika e do Glasnost tentavam estruturar uma União Soviética em ruínas.
Nos EUA, Ronald Regan estava envolto numa crise de corrupção denominada “Caso Irã-Contras”. Em suma, tanto o cenário capitalista como o socialista não mais ofereciam as mesmas seguranças utópicas de outrora.
No Brasil, o movimento "DIRETAS JÁ” ganhava força e o cenário ainda era de incerteza.
Com essa canção, Caetano parece montar e remontar à indefinição que se encontrava o Brasil:
“Será, será, que será?
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos…”
Que será, que será?
Será que essa
Minha estúpida retórica
Terá que soar
Terá que se ouvir
Por mais zil anos…”
MÚSICA E SOCIOLOGIA, por Roniel Sampaio Silva
Ao que parece, Caetano, sutil e sagazmente apresenta um ponto de vista de política bem diferente do entendimento da época. Antes da queda do muro de Berlim, esse entendimento era orientado por uma lógica dicotômica e maniqueísta. Era forte a ideia de Bem versus mal; o feio versus bonito; burguesia versus proletariado.
Como dizia Cazuza:“A Burguesia fede”.
Entretanto, Caetano parecia querer romper com esta lógica:
“Queria querer gritar
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais…”
Setecentas mil vezes
Como são lindos
Como são lindos os burgueses
E os japoneses
Mas tudo é muito mais…”
E o que seria esse “muito mais”? Para o tropicalista, a política deveria ser vista para além do aparente. A história precisaria ser reavaliada também por uma análise estética e cultural.
“O tropicalismo contrapõe-se à estética e à política, pois não possui um discurso verbal politizado. O caráter revolucionário e político do movimento estão inseridos em sua própria estética.” (Contier, 2003)
A música pode ser interpretada como uma leitura do tradicionalismo presente na resistência estética do brasileiro influenciando toda política Latino-Americana, região em que a maioria dos países era uma ditadura na época.
Neste sentido, o baiano parecer fazer uma correlação:
“Será que nunca faremos / Senão confirmar / Na incompetência / Da América católica”.
Neste sentido, a ética católica é criticada por influenciar na cultura uma tolerância às ditaduras. Tal tolerância parece ajudar a naturalizar a corrupção:
“São tantas vezes gestos naturais.”
Pelo jeito, a solução da corrupção está muito associada a aspectos culturais.
Os brasileiros ainda têm um tradicionalismo que impede pensar sobre outras perspectivas para além da política, de modo tal que a estética de Caetano parece incomodar:
“Queria querer cantar afinado com eles”.
Neste sentido, a sociedade brasileira só mudará seus aspectos políticos mais profundos a partir de mudanças na cultura, como diria Betinho:
“Um país não muda pela sua economia, sua política e nem mesmo sua ciência; muda sim pela sua cultura.”
Pelo jeito, as incertezas de Caetano trazem consigo certo pessimismo que só não se torna absoluto por conta da esperança na arte e na música:
“Será que apenas/ Os hermetismos pascoais /E os tons, os mil tons /Seus sons e seus dons geniais /Nos salvam, nos salvarão /Dessas trevas e nada mais…”
Referência:
Contier, Arnaldo Daraya. O movimento tropicalista e a revolução estética. Cad. de Pós-Graduação em Educ., Arte e Hist. da Cult. São Paulo, v. 3, n. 1, p. 135-159, 2003
Qualquer semelhança com 2019 (que chamarei de "The Year Obscured by Clouds") é pura coincidência ou imaginação.

Herta, como sempre, teus conteúdos são sempre atuais e quando não adentram a alma de cada um de nós, vasculham o lodo da política em contraponto à leveza da produção artística. A estética da arte versus a estética da política. Sempre atual, talvez hoje Caetano trocaria a "América católica" (que apoiou a ditadura, diga-se de passagem, pela América evangélica (evangélica não necessariamente e apenas neo pentecostal) apoiando a brutalidade e a sociopatia que ocupam o trono do Planalto.
ResponderExcluirParabéns mais uma vez!
Muito obrigada pelo seu apoio incondicional.
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