MISERIA OCCULTA
Bate nos vidros a aurora,
Vem depois a noute escura;
E o pobre astro que ali móra,
Não abandona a costura!
Para uns a vida é d'abrolhos!
Para outros mouta de lyrios!
Bem o revelam seus olhos,
Pisados pelos martyrios!
Miseria afugenta tudo!
Miseria tem dons funestos!
Quem é que gaba o velludo
D'aquelles olhos honestos!...
Ninguém seus olhos brilhantes
Descobre n'essas alturas...
E aquellas formas tão puras,
E aquellas mãos elegantes!
Sempre á costura inclinada!
Morra o sol ou surja a lua
Nunca vi descer á rua
Aquella loura encantada!
Aquelle lyrio dobrado
Por que assim vive escondido!
Eu bem sei!--não tem calçado!
E é muito usado o vestido!
Por isso não tem porvir
Morrerá virgem e nova,
E aguarda-a bem cedo a cova...
Que eu bem a ouço tossir!
Miséria afugenta tudo!
Miséria tem dons funestos!
Quem é que gaba o veludo
D'aquelles olhos honestos!
Pobre flor desfalecida
Tão nova e ainda em botão!
Como teve estreita a vida,
Terá estreito o caixão!
António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'
António Gomes Leal era um poeta português, natural de Lisboa.
Frequentou o Curso Superior de Letras, que não
chegou a concluir, empregando-se depois como escrevente de um notário lisboeta.
Esteve ligado à literatura panfletária e folhetinesca da época.
Foi
co-fundador, em 1872, do jornal satírico O Espectro de Juvenal e, em 1881, de O
Século. Entretanto, em 1875, publicou o seu primeiro livro de poemas —
Claridades do Sul. Em 1881, a publicação de A Traição e O Herege provocou um
escândalo político e literário que tornou o seu nome célebre, ao atacar a
Coroa, a Igreja e a sociedade burguesa numa manifestação de incentivo à
revolução social, apanágio de muitos escritores do período realista.
Esta
poesia de combate, que persistiu em Anticristo (1886), não impediu a
manifestação simultânea de uma problemática religiosa e humana, que procurava a
redenção das questões misteriosas da vida do homem, por exemplo, no ocultismo,
ou, após a morte da mãe (1910), na sua conversão ao catolicismo.
Esta morte
veio também colocar-lhe sérios problemas económicos.
Recolhido por caridade,
vivendo em casa de várias pessoas que dele se apiedavam ou mesmo nos jardins
públicos, criando uma imagem de loucura vagabunda e inofensiva, foi-lhe
atribuída, por intervenção de um grupo de escritores, uma pensão do estado que
lhe permitiu, a custo, sobreviver.
A obra de Gomes Leal resulta da confluência
de uma série de tendências: a poesia combativa do realismo, o parnasianismo, o
romantismo, o simbolismo e mesmo um certo satanismo, a que se associaram os
episódios dramáticos da sua vida de boémio.
Todos estes elementos contribuíram
para uma poesia visionária, torrencial e desigual, que fez dele um dos poetas
mais singulares da moderna literatura portuguesa.
Para além das obras referidas
escreveu ainda A Fome de Camões (1880), A Mulher de Luto (publicada apenas em
1902), Mefistófeles em Lisboa (1907), História de Jesus (1883), Fim de Um Mundo
(1900, compilação da sua poesia de intervenção), A Senhora da Melancolia
(1910), e uma série de quadros satíricos da vida das grandes cidades.






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