SÓ UM PACOTE DE BISCOITO



Olhos negros, grandes, tristes e assustados. 
Cabelos despenteados e sem cor definida.
Altura? Um metro e dez, por aí.
Pele amarronzada.
Um tanto frágil e magro demais, talvez sem muita comida. 

Ou com pouca comida... Desde que nasceu?
Será que houve um nascimento ou é apenas um espectro sofrível, retrato de mais uma cena que insistimos em não ver.
Talvez um holograma da nossa própria miséria. 

Mas, ó, a imagem falhou!
Na minha corrida diária e impensante, com sacolas de “queijos e vinhos”, eu ouço longe, bem ao longe, uma pequena voz como vinda de outro mundo... e veio de outro mundo, uma voz fina, quase apagada, dizendo:
- Dona, me dá um pacote de biscoito?
Pressa, incômodo, desconforto, confusão e uma leve suspeita de que “o pacote de biscoito de hoje” pode ser a "arma de amanhã” me levam de volta à caverna de Platão, onde as sombras me aliviam com falsas ilusões de uma realidade que não quero ver, nem tampouco aceitar.
Eu estava ciente de que ele era apenas uma criança?
Eu estava, sim, consciente, de que aquele pedido era o ocaso de um enorme caos.
E muito mais, estava consciente de que eu não queria estar ciente de nada.
Parei e olhei para ele. Agachei-me à sua altura e tentei olhar mais profundamente. O pobrezinho foi se encolhendo, talvez à espera de uma bronca a mais que recebe pela vida.
Mas eu tentei, suavemente, andar por outro lado:
- Por que você não está na escola? - Onde está a sua mãe? - Ela trabalha?
De repente, eu parei e disse a mim mesma:
- O que é isso, mulher? Não seja insana. O que você fez por ele hoje ou durante toda a vida dele? Veja só você, carregando “vinhos e queijos”, não vê que esse pequeno é muito maior do que você jamais será?
Deixo tudo isso para trás e pergunto novamente:
- O que você quer mesmo, menino?
E ele, mais encolhido ainda, responde de forma quase inaudível:
- Eu só quero um pacote de biscoito, dona!

(Herta, saindo do Amantino, numa tarde qualquer, em Viçosa, há muitos, muitos anos)

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