ASMA

 

Fotografia Herta Scarascia


 

Falta de ar... ar faltando. Pressão. Peito doendo. 

Aperto no peito. Respiração...  

Falta de respiração... tum... tum.. tum... 

O coração disparado.

Bombinhas. Cortisona. Mais bombinha. 

Libera o ar!  

Pulmão sufocado. Tosse. Tosse. Tosse... até doer a costela. 

Chiado. Ruído. Gato.

Chiado. Gato miando. Chiado feio. Apertado. 

Falta de ar.

Desgraça de asma!

Lembro de minha mãe, num quarto separado pra mim, totalmente limpo e vazio, passando pano quente com ferro pesado e colocando esses panos sobre meu peito, misturado com Vick, tudo muito apertado, sem ar... E a chieira!  E nada. Nada aliviava a falta de ar. Asma!

Nasci com asma. E tive asma a minha infância toda. Tive asma na minha adolescência. Tive asma durante minha vida adulta. E, depois de longos anos sem me lembrar de asma, há duas semanas luto para respirar em meio a asma.

Medicada. Cuidada. Alimentada. Em casa... penso nas pessoas que morreram por falta de ar, na Covid. Doença assassina, arma letal usada pelos maus e sem escrúpulos. Sem coração.

Ficar sem ar não é fácil. O ar é a base da nossa existência.  O pulmão, bem ventilado, arejado e funcional nos capacita a existir. 

E estão destruindo o pulmão do mundo, a Amazônia.

Não terão bombinhas contra a falta de ar causada pela gigantesca savana amazônica. 

Todos morrerão asfixiados, de asma ambiental, de calor, abafados e sem ar.

O homem é insano. O ser humano é louco.

Asma aqui é coisa de família.

Tenho um irmão que também nasceu asmático. 

E tenho um dos filhos que também luta com a asma, de forma menos agressiva.

Minha sogra também era asmática. Pobre coitada!

Volto no tempo.

Rua do Divino, Visconde do Rio Branco, Zona da Mata de Minas Gerais.

Uma porta comprida e estreita. E um pequeno bizarro universo lá dentro.

Era meu pai quem abria a porta. Vestido de branco, pois médico, adentrava o espaço aberto que era a sala. Vazia, com um sofá feio e meio encardido. 

Um quadro na parede, bem grande, com uma daquelas gravuras que mostram o potencial da felicidade no campo. Uma casinha azul com chaminé soltando fumaça, um riacho manso correndo em frente, árvores ao lado, um sol cantante e feliz, passarinhos gordinhos e crianças nascidas para serem só crianças. Ali, presas naquela imagem que deveria ter sido reproduzida umas mil vezes, em cores que misturavam o pálido do velho e a robustez do verde, azul e amarelo das cores de um Brasil que nunca aconteceu. E eu ficava olhando para aquela gravura, talvez mais assustada com a enorme moldura dourada que, em dissonância com a imagem, me causava estranheza.

Ao lado, uma outra porta, sempre fechada. E era assim que era para estar. Fechada e proibida. Meu pai entrava e saía de lá. Mas eu acho que só eu via. Ninguém parecia se importar.

Através da cortina de chita, que fazia descer dois grandes degraus de cimento tinto de vinho avermelhado, era o que se tinha de interessante. A figura da Sazina. Que figura estranha e bizarra ela era para mim! Carinhosa, sem ser grudenta, aos meus quatro irmãos, mas fria e distante de mim. Sempre me olhava com olhos de cobra, tão azuis e brancos os olhos e tão cheios de raiva!

Eu evitava olhar para ela. Era uma avó que não era avó. Não dava colo. Não falava coisas bonitas para mim. Não me olhava com amor e nem mesmo com carinho. Aliás, não falava comigo e nem mesmo chegava a olhar para mim.

Algumas vezes, ela me disse algo do tipo: não era para o seu pai, Ary, nem o irmão dele, Adeir, terem tido filhas mulheres. Mulher não serve pra nada! Só pra sofrer. E logo as duas que eles tiveram foram ser as mais feias da família!

Eu tive vergonha por ela me dizer aquilo! Como uma vovó poderia dizer algo tão cruel para uma menina de uns sete ou oito anos?

Na hora de dar dinheiro, ela enfileirava os meus irmãos e a mim. Caíam muitas moedas nas mãos do meu irmão mais velho, que ela tinha como seu preferido. Caíam outras tantas, em menos quantidade, nas mãos dos outros dois irmãos. Chegava na minha vez, não havia ruído de moeda. Era uma. E mais algumas poucas para o meu irmão caçula. A minha é que era uma só.

Então, eu cresci tendo certeza de que ela não gostava de mim de jeito nenhum. Mas não conseguia entender o porquê.

No quarto dela e do meu avô, uma cama de casal daquelas antigas, de ferro. E numa das paredes, a minha vergonha. Meu avô colava fotos de mulheres de revista pornográfica na parede. 

Naquela época, não era nada tão ofensivo e aberto, mas eu me sentia muito mal ao entrar ali, pois sabia que meu avô tinha um distúrbio. Ele não era exatamente um vovô. E também não olhava para mim. Enfim, era como se eu não existisse ali.

Minha mãe também era persona non grata. Estudada e muito culta, não conseguia se misturar com os cabelos na comida feita no fogão à lenha pela minha vó. Comida gostosa, sim, mas tinha cabelo! Ai!

Bem no fundo da casa, minha avó, saída da miséria da roça, abrira um salão de beleza para que pudesse ganhar mais dinheiro. Mulher trabalhadeira.

Uma vez, feliz da vida, eu perguntei a ela: - Posso fazer unha no seu salão com uma das moças?

Ela: - Pode. Mas tem que pagar. Ninguém aqui trabalha de graça, viu, menina?

E me lançou o velho olhar azulado de cobra, retirando dos enormes peitos, um potinho de metal. Abriu e cheirou. Andou mais uns passos e começou a espirrar. Era rapé. E eu, acuada, meio sem saber como lidar com aquela mulher enorme, de tetas enormes e temperamento enorme, estatelei os olhos. Ela logo viu, e disse: 

- É prá espirrar. E fica calada.

Sabendo que lá, na parte de baixo e dos fundos da casa eu não encontrava nem um cantinho pra me sentar, subi para olhar a gravura da alegria irreal enquadrada em dourado fosco na sala da casa da minha avó.

Foi então que uma curiosidade que sempre me acompanhou a vida toda começou, dia após dia, a me cutucar.

- Abra a porta que não pode abrir, Herta. Abra a porta.

Era proibido. E pelo pai! Mas como me sentia muito sem sentido ali, talvez até esquecida, ninguém se lembraria caso eu abrisse a porta. E abri.

Era um quarto escuro, minúsculo e comprido, com uma janela aberta lá no fundo. Vislumbrei uma cama à minha direita, encostada contra a parede. E, num pulo, fui direto até perto da janela, para ver direito aquela cama, pois estava contra a luz.

Que horror! Havia um homem, pálido, sem carne, tipo pele e osso, mas com os olhos muito grandes. E azuis. E eu fiquei muito assustada. Como eu nunca soube que existia outro ser humano na casa da minha avó?

Ao lado dele parecia ter um soro, algo parecido com um respirador grande. Na mesa debaixo da janela, pude ver dezenas de medicamentos. Eu pensei: a minha vó  cuida de alguém doente?

E, de repente, percebo que ele estava assustado comigo, e eu, assustada com ele, um encarando o outro. Ele, um moribundo de uns 65 anos, e eu, uma menina curiosa de uns oito anos de idade.

E nesse momento, escuto os barulhos que tanto amedrontavam a minha infância, só que muito mais altos, mais terríveis, mais assustadores:

Chiado. Gato miando. Chiado feio. Apertado. Falta de ar. 

E, de repente, ouço atrás da janela... có có ri có có...

As galinhas do meu avô estavam cacarejando ao ritmo do chiado da asma.

E ele, pálido, parecia, às vezes, não estar respirando mais...

Desgraça de asma!

Saio correndo, desesperada!

Vou até minha mãe e procuro saber sobre aquilo.

- Filha, aquele é seu tio Quincas. Irmão da sua vó Sazina. Ele está morrendo de asma. Fumou a vida toda, mesmo sabendo que não podia fumar. Seu pai está cuidando dele. Mas tem coisas que não dá pra fazer. Esquece! Não devia ter entrado lá.

Não. Não devia!

Pobre Tio Quincas, que não tinha olhar de cobra, mas de sofredor!

Nasceu asmático, noivou-se do cigarro e casou-se bem novo com a morte.

Ontem, anteontem, estas duas semanas... eu tenho inspirado ar e expirado chiado. 

E, numa lembrança chata e impertinente, ouço junto do meu chiado de asma o cacarejar das galinhas da minha avó que tinha olhos de cobra pra mim. 

Só um desabafo!

(Herta Scarascia, 11 de maio de 2022)

 

Comentários

  1. Herta, um relato fantástico (quase um realismo fantástico) de um pedacinho da tua infância. Que riqueza de impressões e que sutileza quando os pincéis da indignação social, política e ambiental te inspiram para um recorte temporal. Um salto no tempo unindo as memórias da infância e a memória recente, tão suplicante. Parabéns!

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    1. Muito obrigada, Giovanni! Sempre um grande apoiador das causas solitárias... :)))

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  2. Que bonita sua escrita Herta! Que forma inteligente de entrelaçar assuntos! Como a leitora aqui ficou curiosa com o que viria nas proximas linhas! Surpresas interessantes. E este final curioso que se encontra com o inicio e fala do sofrimento. Parabéns! Rosane Rolla

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    1. Obrigada, Rosane. Que bom que tenha gostado! Fico feliz que tenha gostado! :)))

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    2. Herta, vc escreve bem demais!
      Me orgulho por ter vc como minha sobrinha!
      Te amo linda!
      Bjs

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  3. Herta, você pinta uma obra com as palavras.

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