EU MORRI... E RENASCI (a Covid mata)








Sim, eu morri por quase dois meses. E renasci das cinzas. 

A Covid derrubou, primeiro, o Giovanni, mas ele se reergueu em menos de 10 dias.


Eu não. Eu, de fato, morri. 


Mesmo com quatro vacinas e muito cuidado, eu peguei Covid e morri. 

Sim, eu morri. 

 

Como eu não me lembro dos fatos em absolutamente nada, mas de experiências do mundo da mente, não sei se deste mundo ou de outros mundos quaisquer, o que reporto me foi contado e recontado, como farrapos de memórias, por pessoas que vivenciaram tudo comigo.

...

Fomos passar o Natal de 2023 na casa do nosso filho caçula, Pietro, e sua esposa, Mariana, bem como de nossos netos, Theo e Levi, muito pequenos ainda.

 

E foi lá que o Giovanni começou a ficar doente. Eu, sem saber o que ele tinha, e depois sabendo, cuidei dele o máximo que pude.

 

Pelo que me reportaram, eu estava desesperada, com medo de que ele morresse, pois veio logo o diagnóstico de Covid, muito provavelmente pego na viagem aérea de quase 20 horas, entre Belo Horizonte e Cruzeiro do Sul, no Acre.

 

Mas depois, eu soube que ele havia melhorado, paulatinamente, enquanto eu morria, rapidamente.

 

E morri.

Morri exatamente há um ano atrás, dia 27 de dezembro de 2023. 


Morri ali, na casa do meu filho caçula. 


E fui levada, morta, em uma ambulância, para um hospital indígena, cujos recursos se limitavam a intubações e um aparelho de radiografia simples, que apontou menos de 15% de pulmões funcionando.


O hospital entendeu que alguns tubos poderiam me fazer viver, quem sabe, mais um ou dois dias.


E então meu pulmão já não funcionava.

Eu não estava.

Eu não era.

 

Meu marido lutou, com garras de animal feroz, para que eu pudesse ser transportada para Belo Horizonte, para uma UTI que pudesse tentar não abandonar o resquício de vida que me restava.

 

Não poderia ir. Não havia o mínimo de condições físicas para suportar qualquer tipo de voo.

Mas ele lutou, lutou e lutou até conseguir transformar transporte em resgate.

 

Daí, o problema foi financeiro. O preço era monumental, descomunal. E nosso plano de saúde, mesmo sabendo da minha morte iminente, negou qualquer tipo de ajuda.

 

A união do amor fez com que meus filhos e meu marido assumissem dívidas homéricas em favor de uma vida que já era. 


Meus irmãos colaboraram também. 

Porém não havia nada ali, a não ser tubos e total falta de esperança.

 

Mas havia fé!

 

E onde eu não era, Jesus era. E é.

 

Depois de muito morta, oxigenando cerca de 55%, uma UTI em construção e sem absolutamente nenhum recurso, de um regaste de altíssimo risco, ambulâncias caindo nos buracos da estrada precária, baixando ainda mais a oxigenação, uma outra UTI, já em Belo Horizonte, várias escaras profundas e extremamente dolorosas, duas septicemias, várias febres, fortes crises alérgicas, pronada cinco vezes e quase entrando na hemodiálise, traqueostomizada,  eu ainda vivenciei o que eu chamo de inferno. 


Inferno no mundo espiritual/emocional, quiçá!

 

Eu vi, e me lembro de tudo, demônios de toda sorte, nesse mundo espiritual que nos ronda aqui, não o de lá. Eu vi muito ser humano mau, de coração ruim, cruel e vil. 

Todos estabeleceram contato comigo. 

Mas eu me afastava. 


Eu gritava, na mente, no coração e no espírito, por luz, por Jesus.

 

Foi depois de muito, mas muito sofrimento, mesclando o que eu via no mundo de lá com o que eu sofria no mundo de cá, com enfermeiras más, em meio a alguns bons e raros profissionais, que eu, finalmente, recebi, lá, a visita de um anjo.

 

Ela, o anjo sem sexo, mas com rosto de mulher mulata, me olhou com olhos grandes e bondosos, em meio a asas enormes, gigantescas e muito iluminadas, e me abraçou.

 

Alçou voo comigo e me tirou dali, do inferno.

 

Sentindo frio, eu pedi para ir para casa. Ela não falava, mas me desceu até uma charrete, onde havia uma mulher negra e gorda, que me envolveu num cobertor e me acolheu.

 

Eu chorei. E me senti acolhida. 

Era no mundo espiritual.

 

Meses morta, experimentando o horror do inferno, do frio, da fome, da sede excruciante, da dor descomunal, da perda de toda sorte de dignidade física, emocional e espiritual, depois de quase dois meses, como fênix, eu renasço. 

Não totalmente. 

 

Renasço aos pedaços.

 

Olho sem ver. Vejo sem olhar. 

Escuto sem ouvir. Ouço sem escutar. 

 

E, no quarto do hospital, aprendo, em meio a muita dor, que a grande maioria das pessoas é muito má. 

Existiram algumas que me ajudaram. Que me deram água na boca, mas a maioria tinha alma na escuridão. 

E eu conseguia ver isso.

 

Muitas e muitas vezes, sentia frio e solidão. 

E medo.

Medo por não entender onde estava.

Medo porque estava. 

E medo do porquê estava.

Não estava, mas estava.

 

Para sair do hospital, ter a alta, antes um pouco, eu comecei a enlouquecer.

Me lembro, disso me lembro, que eu não entendia por que não podia ir para minha casa, minha cama, pois a dor diária e noturna, mesmo com injeções sucessivas de morfina, consumia minha recém existência. 


Era morfina para conseguir suportar abrir os olhos. E morfina para tentar entender que eu estava, finalmente, tentando viver.

 

A alta foi praticamente arrancada, mas somente com uma condição: teriam que montar um tipo de quarto de hospital na minha casa para que eu recebesse todo o cuidado que estava recebendo no hospital: antibióticos mais antibióticos, via intravenosos, balão de oxigênio, cadeira de rodas, cadeira de banho e uma sucessão de cuidadoras, que eu chamo de des(cuidadoras), pois também descobri, com tudo isso, que essa gente, chamada “cuidadora” o que menos faz é “cuidar”. 

São, na grande maioria, muito despreparadas e desprovidas de bons sentimentos.

 

Recebi, diariamente, e tudo foi pago, tudo, a visita de fisioterapeutas para me ajudarem a recuperar a musculatura (massa magra), que havia ido embora junto com os 30kg.

 

E depois de quase quatro meses, no total, recomeço a viver de novo, pisando, como bêbada equilibrista de uma vida que me deu um tropeção, no chão frio da minha própria casa e na grama viva do jardim que me esperava, junto ao amor da minha vida que, aqui na terra, me salvou... e junto aos meus rebentos, agora já com seus próprios mundos.

 

É isso! 

 

Se houve algo especial? 

Sim. 

 

Como bem disse o apóstolo Paulo, “não sei se neste mundo ou no outro mundo”, eu aprendi que a alma subsiste. 

E que, para que essa alma, ou espírito, possa descansar, é necessário fugir de tudo o que é do mal e chamar pelo nome de Jesus Cristo.

 

Só depois de gritar pelo nome dele é que fui resgatada daquele mundo sombrio, escuro, sujo e das trevas, que eu sei que existe e que não desejo nunca mais, nem a mim e nem aos meus.

  

JESUS CRISTO, Ele, sim, apesar da dor, foi o grande orquestrador de TUDO. 

 

Por Ele e para Ele, toda minha eterna ADORAÇÃO. 


AMÉM!!!

                                                            

  (por Herta Scarascia, sobrevivente da 

SARS-CoV-2, ou Covid-19 , a maior e pior pandemia mundial dos últimos séculos. 

Não. Não é uma gripezinha. 

É cruel. E mata.)



Comentários

  1. Herta, chorei lendo o que você escreveu. Meu Deus... Quanta dor!!! E quanto amor da família. Você foi só outro lado da vida e voltou. Você tem muito a viver por aqui ainda. Tem os netos para alegrar ainda mais seus dias. Você é iluminada, tenha certeza disso. Saudade minha amiga. Muitas bençãos pra você e sua família. ❤️😘

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  2. Minha querida Herta. Tentando me recompor da emoção e do pranto ao ler este maravilhoso relato. Rezei por você, pensei em você, e me sentia triste por não saber de você. Agora estou com um sorriso imenso de alívio e felicidade. Deus te abençoe, minha querida amiga. Beijo pra você e seu amado Geovane. 💐💖😘

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  3. Queridissima, bem-vinda a vida, ao mundo real? Que mundo né! Enfim vc está viva para compartilhar com quem realmente te ama 💕... Penso e sinto parecido com vc.. Tem muita gente má, precisamos estar longe de tudo isso e fazer nosso cantinho cheio de amor, carinho e tudo que nos faz bem,nos fazer crescer espiritualmente 🙏🌹Me sinto grata e feliz por estar participando de alguma forma nesse seu processo de renascimento Tenham um lindo dia🌞...Um forte e carinhoso abraço 🌹. Bete/ Zé ❤️

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