POR QUE A ELITE BRASILEIRA ODEIA LULA?

 

Fotografia: Herta Scarascia

Referência à "La Bocca della Veritá", que, na verdade, é uma imagem esculpida em mármore pavonazzo de um humanoide. Esta imagem se encontra no pórtico de Santa Maria, em Cosmedin, Roma. Reza a lenda que a escultura tratava-se de uma tampa de um bueiro e retrata o deus romano chamado Oceano, mas a maioria dos italianos acredita que a Bocca represente o antigo deus fluvial do Rio Tibre. Como bueiro, ela também servia de detectora de mentiras. Desde a Idade Média, acredita-se que se alguém colocar a mão dentro da boca da escultura e contar uma mentira, a boca se fecha e arranca a mão da pessoa. 


Pra começar, vou tentar encontrar um ponto onde Lula pudesse ter feito algum mal às elites ou aos ricos ou muito ricos no Brasil.


Minha experiência não vem de leituras de livros sobre luta de proletariado, embora eu fosse tomando conhecimento da mesma ao longo da vida, nem da boca de Williams Bonners, nem tampouco de nenhuma imprensa comprometida com agendas liberais, mas com a minha própria experiência e com a minha verdade, que nasceram de fatos empíricos, de total observação da história que estava se fazendo, e não por cabresto, por sociedade, seguindo pensamentos e ações de família e da sociedade, fosse ela alternativa ou não.  Também não construí o que penso por meio de blogs, sejam eles parciais ou imparciais.  

 

Quando Lula surgiu, eu era funcionária pública federal, trabalhava em universidade federal, a mesma na qual eu me formei. 

Devo dizer que a minha própria história já me colocava numa posição de privilégio social. 

No entanto, eu nunca consegui me sentir inserida em qualquer privilégio frente a um país com desigualdades sociais vergonhosas, com pessoas em extremo grau de fome e de miséria. 


Essas pessoas e pessoas na minha situação não podiam estar tão desumanamente separadas. 

Lula surgiu como líder sindicalista nos idos dos anos 70. 

Naquela época, eu era uma jovem adolescente que nem sabia o que seria um sindicato e até mesmo lutas por direitos, embora já enxergasse todo o sofrimento das pessoas em situação de risco.


Para encurtar, nos meus 12, 13 anos, no máximo, eu comecei a "fugir de casa" para tomar conhecimento, sozinha, do que estava acontecendo nas chamadas Quatro Pilastras, na UFV. 

Sim, fugir por que a situação era quase sempre caótica envolvendo estudantes e a polícia. Havia ódio e caos, e todos sabiam dos riscos. Meus pais jamais permitiriam que eu, uma menina ainda, assistisse aquilo. 

Mas o local  era perto de algumas casas, e era um local de divisão entre a universidade e a cidade de Viçosa, em Minas Gerais.

Eu via estudantes sendo castigados, levados em um carro grande e fechado, que mais tarde soube chamar-se camburão. 

Eu vi fumaça, choros e gritos. E permanecia escondida no matagal por perto, com muito medo de tudo aquilo. Mas muita curiosidade. Semestre após semestre, aquilo ocorria. 


E conversando com um amigo, que já tinha 18 anos e estudava na UFV, fui tomar conhecimento de que eram os militares que, não suportando alguns comportamentos, levavam embora certos alunos para dar um castigo. Depois, eles devolviam. 

Durante um longo tempo, fiquei pensando sobre tais castigos. Não consegui mais falar com  aquele amigo, que era mais amigo de uma família da cidade. 


Mas ao ir às aulas de natação, cuja piscina ficava na UFV,  tudo parecia organizado, limpo e muito silencioso, sem aquelas brigas horríveis. 

No entanto, alguns alunos e alunas tiravam de um bornal alguns papeis que transitavam entre eles. Eu queria saber o que era. 


E realmente tinha informações sobre aquela "guerra" nas Quatro Pilastras. Muita coisa dita que eu não entendia. Mas me lembro de entender que alguns estudantes estavam desaparecidos. Me lembro de entender que eles sofriam muito e quando voltavam, não podiam nem falar sobre o que passaram.

No mais, as letras não me diziam muita coisa na época.

Voltando à questão Lula, ele nunca chegou dessa maneira, querendo e procurando guerra, armando,  travando luta, como um revolucionário à la Che Guevera brasileño.  Nunca. Ele buscava por direitos iguais.


Eu o via, já adulta, "ma non troppo", como um rapaz de aparência simples, operário, pobre, mas de extrema força, tanto física quanto emocional e força sindical, um homem de visão ampla e democrática que sabia se expressar muito bem. 

E parou por aí.


Na sua disputa inicial à presidência, ele foi adorado pela classe média trabalhadora, que precisava ser reconhecida, precisava ser  melhor remunerada e precisava de outros direitos que haviam sido retirados dela. 

As classes operária e baixa estavam em estado crítico, precisando de emprego, precisando comer, exatamente como agora, nessa guerra da Covid-19 e do inepto e nefasto presidente Bolsonaro.

A miséria estava imperando no Nordeste brasileiro. E Lula chegou com um discurso muito aprazível, com  projetos sólidos, que melhoravam a vida de todos e, ainda assim, não mexiam nos ricos e milionários. 

Ele nunca brigou pelos direitos às propriedades privadas dos grandes latifundiários. Nunca desapropriou terra de ninguém. E ninguém nunca perdeu dinheiro enquanto Lula era presidente. E digo isso referente aos seus dois mandatos.


Ao contrário. Todo mundo, da elite ao proletariado, todo mundo, ganhou dinheiro. O Brasil escalou a quinta potência mundial. Foi um país respeitado mundo afora. 

E foi um governo “bonzinho”, paternal para todos, ricos e pobres.


Mas daí vem minha pergunta: de onde vem todo esse ódio contra um presidente que tentou manter uma desigualdade menos drástica e, ao mesmo tempo, satisfazer os ricos e os grandes empresários? A partir de quando cresceu esse ódio? Por quê?

Antes, a resposta era simples: Lula é ladrão. Mas agora, completa e totalmente inocentado, só um tolo imagina ser Lula culpado. 

Apesar de todas as provas contra as atitudes do juiz Sérgio Moro, ainda passeia na minha mente uma pergunta que eu não consigo a resposta: por que a elite brasileira odeia tanto Lula?


Eu poderia até considerar ser uma questão de fascismo, quero dizer, tratar-se um uma elite fascista. Isso seria provável, principalmente porque está em voga o termo “fascismo”. E tudo se resolvia. “Tem sangue fascista”, pronto e acabou.


Mas não é isso. Além de tudo, o fascismo, no seu sentido lato, é algo muito mais grotesco e cruel do que apenas odiar. Ele se alinha a pensamentos que se tornam ação, mudando o caráter da pessoa ou do grupo de pessoas.


Essa dúvida me leva pensar em contexto e em estratégias de dominação que fazem com que a luta de classes e o ódio a Lula sejam ferramentas de algo mais profundo, mais perverso e mais dominador: a guerra híbrida.


Seria, talvez, ingenuidade pensarmos que o ódio a Lula estivesse ancorado somente na visão classista. Há mais temperos nessa sopa. E há temperos internos e externos.


Internamente, o atual mandatário reuniu uma multidão de apoiadores com base em uma agenda de costumes: o brasileiro conservador, violento, misógino, homofóbico e outros “óbicos” (como se todos eles fossem castos, puros, fiéis e honestos). Externamente, o inimigo quer nossa energia. 

É bom lembrar de quando estourou o escândalo da espionagem norte-americana em alvos brasileiros como em Dilma Roussef e na Petrobrás. Pois é. Épocas do “republicano” Obama. E o que sucedeu depois? O recrudescimento da Lava Jato. Por aí, explica-se os encontros fortuitos ou não com o departamento de justiça (em minúsculas mesmo) ianque e o que experimentamos após: desemprego em massa e a quebra de nossas melhores empresas.

Precisa desenhar ainda mais?


Como se não bastasse esse cenário de terror que mimetiza uma guerra onde se destrói a soberania nacional, temos o componente mais avassalador de manipulação da opinião pública: a mídia.

A “verdade” se constrói quando se repete uma mentira inúmeras vezes. 

E foi o que a mídia brasileira fez. Sem o mínimo olhar crítico (que se exige de um jornalismo de verdade) reproduziu fielmente o script escrito por um grupo elitista e que se autointitulava  os arautos do combate à corrupção.

 

Deu no que estamos todos assistindo.

 

Então, se juntarmos os ingredientes dessa receita explosiva teremos uma parcela de brasileiros conservadores, outra parcela de interesses estrangeiros em nosso petróleo (o que já aconteceu. Eles são donos de nossa energia), uma parcela de mentes robotizadas por uma mídia conservadora e adepta do liberalismo que martelou anos a fio a ideia de “Lula ladrão”, outra parcela, e talvez a maior, de evangélicos pentecostais que sofreram e ainda sofrem uma perfeita lavagem cerebral, e, por fim, a ojeriza classista da elite nacional dentro da percepção oligárquica da casa grande e  senzala.

Quatro em um.

 

O ódio alimentado contra Lula advém da manipulação mental das pessoas que aprenderam a pensar assistindo a velha mídia nacional ou apoiando-se em grupelhos de WhatsApp e nos núcleos evangélicos, que enxergam Lula um comunista (sem conhecerem o que significa comunista)  contra as regras de Deus.

É aí que a oportunidade se encontra com a vontade manipulada e gera o ambiente propício para a chegada de grupos políticos segregacionistas e negacionistas.

 

Mas, e as pessoas que na época dos governos do PT tiveram acesso à universidade e hoje são profissionais de ponta no Brasil e até no exterior? Isso não conta?

 

Conta.

 

Mas uma pesquisa revelou que essas pessoas acreditam que chegaram onde estão por méritos próprios e não por causa de uma política pública educacional que permitiu essa ascensão social (aí, sim, por méritos próprios).

 

Ingratidão? Talvez.

Dizem por aí que a gratidão é um ônus. E ninguém quer dever nada a ninguém.

A gratidão pesa demais sobre os ombros. E ninguém quer carregar peso, não é?


(Texto Herta Scarascia)

 

 

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