OS TENTÁCULOS DO RACISMO

 


Eu nasci em 1961. Nos anos 60, pelos menos nesse rincão da Zona da Mata de Minas Gerais, num país considerado um dos mais racistas do mundo, a questão nem era discutida. Não era um tema.

Desde muito nova, eu assistia cenas que me faziam acreditar que os negros eram feitos para o trabalho braçal. Não posso negar isso, tampouco ser hipócrita neste meu espaço que, espero um dia, ser visitado pelos meus netos. 

De que adianta pintar um quadro de mentira, dar asas às psicoses e sicoses que muitos criam em seus perfis patéticos, cheios de egos inflados de inverdades se a grande maioria deles, beirando a minha idade, sabe que tivemos essa experiência de não entender muito bem essa questão de brancos e pretos e, pior, das lutas dos negros por igualdade, que vinha de longas datas.

Voltando ao tema, sim. Eu cresci em uma família de gente muito branca, de olhos claros, pai médico bastante conceituado, descendente de judeus novos cristãos, foragidos da guerra, e de mãe erudita, neta de suíços, com toda a sua educação primária e secundária na Sacré-Coeur de Marie, aprendendo não só francês, mas também latim e toda sorte de literatura, algumas várias censuradas, como a própria Bíblia, só lida pelos clérigo.

Quando eu era pequena,  até a minha adolescência, eu só via os negros dentro de minha casa, fazendo parte da minha família como empregados, e recebendo por isso, obviamente. Na época não existia carteira de trabalho. Mas eram trabalhadores que tinham seus quartos separados da casa e não faziam parte das pequenas ou grandes festas da família.  Eles cozinhavam, limpavam a casa, lavavam as roupas de uma família de cinco filhos e ainda cuidavam deles mesmos.   Eu olhava para eles e os via apenas como prestadores de serviço. Eram, para mim então entre a infância e o início da adolescência, um borrão de pessoas escuras, que tinham o mesmo rosto, o mesmo vocabulário, o mesmo jeito de falar e eram gentis com todos nós.

Eu também era gentil com eles, mas não havia diálogo ou amizade. Eram pessoas que estavam ali para trabalhar e, no final do mês ou nos feriados longos, eles sumiam. Não me importava muito para onde iam.

Normalmente eram duas mulheres que se revezavam entre o trabalho de lavar e passar toda a roupa, com ajuda de uma máquina de lavar que meus pais tinham comprado de alguns americanos da Universidade de Purdue, que haviam morado por lá, e a que cozinhava e arrumava a casa. Vergonhosamente, o jardineiro, não só da nossa casa, mas de todas as casas da Vila Gianetti, eram os próprios funcionários (também jardineiros da Universidade), que prestavam esse serviço apenas para os moradores da Vila. Uma regalia que, hoje, gera constrangimento, desonra e demérito.  

Meu pai, que era bem branco, sardento e de olhos muito azuis, tinha raiz em família muito pobre. Os avós dele eram esses judeus que estavam fugindo de Portugal para o Brasil por causa da perseguição ao seu povo. No entanto, chegando ao Brasil, encontraram pobreza em terras mineiras.

 

Meu avô, Alberto Pereira de Oliveira, comprou um pedaço de terra e plantou milho... e também vendia leite. Tinham umas vaquinhas. Por isso, meu pai tinha contato forte com pessoas muito humildes, até a sua juventude, quando ganhou uma bolsa de estudos e depois foi cursar Medicina na Escola de Medicina de Minas Gerais, atual UFMG.

O contato que ele teve com pessoas muito pobres e outras negras e outras negras e pobres mudou completamente o seu ponto de vista com relação a essas pessoas, tanto que seus maiores amigos, depois de anos, eram pessoas muitos simples e pretas.

Eu me lembro de um castigo que meu pai aplicara no meu irmão caçula (R.I.P.) deixando-o de joelhos contra a parede porque ele havia, com 10 anos de idade, dado um chute em uma das empregadas porque ela não fez seu café da manhã. Se tem uma grande qualidade, o meu pai tinha esta:  respeitava e honrava qualquer pessoa, um pouco mais as humildes e as de cor, como ele as chamava.  

Mas as coisas mudaram lá em casa. Meu pai, que era o suporte emocional e financeiro de toda aquela estrutura, talvez tenha se cansado. Ele começou a ter relacionamento com outra mulher, uns 30 anos mais jovem que minha mãe. Toda aquela robustez e todo o vigor da nossa família tombaram. E a queda foi feita para todos nós. Minha mãe ficou irreconhecível. Se hoje, quando já vivemos tempos abertos, livres e desimpedidos, uma separação de um casal de 25 anos de casamento ainda gera especulação, imagine em 1973/1974!

Não entrando em detalhes, é necessário apenas dizer que minha mãe perdeu totalmente a razão e o prumo. E, de repente, eu a      vejo sendo cuidada, penteada, deitada, coberta e alimentada, coisas que não faria por si só, tamanha tristeza.

E, assim, em torno dos meus 12, 13 anos, os cuidadores dela ganham rosto e personalidade diante de  uma menina mimada, que sempre teve tudo em mãos. Pela dor, eu enxergo os olhos, os cabelos, as presilhas, as mãos, os calçados, ouço as vozes, baixinhas, sinto o cheiro da sopa que fazem... e todo aquele universo passa a ser o meu universo, onde eu também ganho apoio, carinho e amor. Vejam só, as empregadas pretas que não existiam agora estão salvando a minha mãe, estão me salvando e salvando nossa casa, que ficara abandonada. As empregadas deixaram de ser empregadas e passaram a ser donas. Donas da comida, da compra do leite na porta da casa, da manteiga e do pão... donas do cardápio, donas de cada um de nós, que ficou ali, perdido e sem rumo.  Eu sentia o cheiro de talco delas, a rede no cabelo era tão bonita! E até o terreireiro (assim costumávamos chamar os rapazes que cuidavam do quintal e do jardim), pretinho feito carvão, carregava minha mãe para o carro, esperando um outro vir para dirigir até o médico.

A casa só não desabou por completo por causa dessa gente que todo mundo não vê. Que todos olham com olhos de desconfiança. Minha mãe era cheia de joias, muitas e muitas. Ficavam numa frasqueira grande, aberta. Durante esse enorme período, nada desapareceu de nossa casa.  

Se o teto não caiu sobre nossas cabeças é graças a essas mulheres pretas. Mulheres fortes. Sábias.

  

Durante muitos anos, eu guardei essa história de muitos. Eu tinha vergonha do início dela. De ter sido uma pessoa que não enxergava os trabalhadores, que não enxergava o valor de quem está ao nosso lado, dando o sangue por um trabalho que, muito provavelmente, é remanescente de trabalho escravo.

 

Há cerca de três anos, eu fiquei sabendo que eu, meus irmãos, minha mãe e, claro, minha avó, Olga Pereira Barbosa, somos todos parentes de Ruy Barbosa, o Águia de Haia. Negro. 

O que parece é que minha avó, mãe da minha mãe, era muitíssimo próxima a ele, a ponto de receber a visita dele em Ubá, quando ele ia ao Rio de Janeiro. Fiquei feliz, mas isso não modificou em nada a minha vida. Na-da!

O que vem modificando são as leituras sobre a história do Brasil. Se a pessoa ler um pouco sobre qualquer parte da história do Brasil vai conhecer as atrocidades do escravagismo neste país. Não é nem ato selvagem. É inumano.

O que deve haver?

Urgentemente, um processo de consciência racial para que o racismo, neste país, se torne algo que exista, de fato, e não aquela visão borrada da menina Herta, que mal enxergava quem eram aquelas pessoas que trabalhavam para ela. O racismo tem que se tornar OFICIAL. E oficial nos termos legais e verdadeiros. Deve-se ensinar não só contra o racismo às crianças, mas lutar contra o racismo. Esta é uma luta de todos nós.

Somos um corpo, um organismo, com partes diferentes, mas formando um só corpo.

No Brasil espalha-se uma idia de que somos todos iguais. Esta premissa está errada. Somos vários. E que bom! Não há nada de errado em ser branco, preto, amarelo, indígena, etc.

Estas diferenças não podem ser usadas para angariar privilégios ou tentar impor uma atitude de miserabilidade.



Acho que o grande, mas grande mesmo, lance é NÃO NEGAR o racismo no Brasil.   Ao contrário, tomar consciência de que o Brasil é altamente racista. Sendo assim, para quem é preto, fica difícil se assumir preto. Existe o medo.

Mas é necessário. É a partir daí que tudo começa. Não adianta uma pessoa negra, por exemplo, se dizer parda ou não negra, porque o racista sabe muito bem que ela é preta. E vai fazer de tudo para prejudicá-la.

O racismo não pode se tornar autofágico na arena de uma país que já está muito doente e feio em vários aspectos.

Grande parte dessa problemática surge a partir de um pensamento reto, obtuso e de total desconhecimento de mundo, de história e de gente. Surge quando as pessoas pensam que a sociedade "pensante", os "formadores de opinião" e aqueles que "fazem a máquina girar" neste planeta são formados, ou deveriam ser formados, essencialmente, por pessoas brancas.

Os negros são, e sempre foram vistos,  como segmentos normais da população do Brasil. Um agente que se mistura às outras raças que aqui se formam. Acontece que os negros não são segmentos normais da sociedade, chamados  povos misturados e iguais a todos. 

Eles formam um povo que constitui a nossa procedência mais verdadeira. A nossa essência. A nossa identidade. Nossos paradigmas, arquétipos e berço. 

  



Herta Scarascia

Comentários

  1. Herta, esse relato demonstra como uma história familiar impacta na percepção cultural de um povo. Para o entendimento geral faz-se necessária a incidência de uma ocorrência (maligna, no caso) que abra a consciência (abrir apenas os olhos seria pouco). Mircéa Eliade, o historiador, certamente trataria desse assunto sob o ponto de vista da revelação. Não é por aí. É do ponto de vista cultural. Talvez um atavismo. Não sei. Lamento que tenha sido pela dor, mas entendo a surpresa. Os invisíveis, quando aparecem, podem surpreender. Parabéns pelo relato fiel e, como sempre, verdadeiro.

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