PRA DIZER QUE TENTEI FALAR DAS FLORES
Eu queria falar sobre o vago perfume e os tons das flores
que estão caindo entre o outono e o inverno.
Eu queria falar sobre o sorriso dos meus netos.
Eu queria falar do amor dos meus filhos.
Eu queria falar sobre as infinitas tonalidades de verde-amarelo do outono-inverno, quando caminho pelo campus da UFV, sem me entristecer
sobre o rapto do verde-amarelo da nossa Bandeira.
Eu queria falar sobre música.
Eu queria acordar no Brasil que conheci durante boa parte dos
meus anos.
Eu queria falar sobre como eu sinto falta de tocar piano,
mesmo que sejam acordes inventados.
Eu queria falar da saudade.
Eu queria falar do amor!
Mas como falar do amor num país que exala ódio?
Não só exala, mas também solidifica esse ódio, fazendo com
que esse sentimento seja quase um corpo?
Não há espaço para a poesia, para a música, para o belo,
para o amor.
Só existe lugar para o ódio, o sangue, a morte.
Como falar de flores, de poesia e de amor num país onde:
- 50% das pessoas estão sem água e sem esgoto em suas casas,
caso haja casas?
- o racismo, o LGBTfobia e o fascismo lideram a criminalidade?
- o feminicídio encontra espaço largo e seguro para morar?
- 25,3% dos brasileiros, em 2018, segundo o IBGE, vivem abaixo da linha da pobreza?
Como falar de flores, se apenas neste ano, e só no Rio de
Janeiro, seis crianças (Jenifer, Kauan, Kauã, Kauê, Ágatha e Kethellen), todas
elas negras, moradoras da periferia, perderam suas vidas por causa de policiais
que, sempre soube, seriam para protegê-las, não matá-las? Nunca.
Como falar de amor num país que espuma ódio?
Difícil!
Só vejo tristeza e ódio.
Por ora, meus olhos ainda estão abatidos!
(Herta Scarascia)

Tua poesia reflete o drama de um País que um dia experimentou a sensação de alegria social devidamente sufocada pelas elites.
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