COVID-19 E AS PESSOAS




Primeiro a negação, depois nossa mente e nossos braços teimam, as pernas se esperneiam e o corpo entra em luta. 
Em seguida, indignação e muita raiva, além de uma enorme preocupação.  

Por fim, um tipo azedo de aceitação,  mas sem nunca deixar de se preocupar, de ter em mente, um minuto sequer, essa praga, essa doença, esse Mal que chegou e vem ceifando milhares de vidas, além de esperanças, de projetos, de sonhos.

O estoicismo, aquele difundido por Sêneca, o mesmo que nele carrega um tipo de nobreza na aceitação dos fatos, tem sido vivenciado de forma quase obrigatória pela maior parte das pessoas neste planeta tão confuso, tão paradoxal, tão limitado, tão sofrido e tão doente! 
E ele faz isso, nos põe de pé, a caminhar. Trôpegos, mas à frente.

Só que desta vez, um tanto sozinhos se se considerarmos o ser humano um ser altamente sociável. 
E eis que surge esse  tipo de "solitude", imperativa e morna, até chegar o momento, e não vai demorar, em que muitos de nós, a maioria, não vai mais estranhar estar assim, sem destino e sem pressa. 

Esvaziar a mente, pensar no hoje, no agora, pensar em nada.
Sem marcas para apagar... alguns papeis para rabiscar. 
Deixar as figuras do grande bloco do inconsciente à deriva, sem medo, sem retração, e dizer a si: está tudo certo dentro de um grande tudo incerto.
Não estou bem, mas essa "solitude" me traz benefícios quando me vejo viva,  encontrando a paz no silêncio e no canto dos passarinhos.

Sentar ao sol, sem planos, sem pressa, sentir o calor abrasando a pele por algum tempo, sem pressa.
Tudo perdeu o tempo. Essa dimensão que estrangula as pessoas está agora sob o nosso poder. Nós agora somos donos do que sempre nos dominou. 

Refletimos sob a brisa que refresca a tarde buscando o equilíbrio que há muito não existia. 

Os barulhos confusos e incômodos que vinham das ruas, buzinas... caminhões, ônibus, carros, motos... atormentando a alma que pede silêncio. Enfim, tudo cessou. 

E agora é hora de acalmar a alma, o corpo cansado.  É hora de sossego. O tão sonhado dia de parar. De contemplar. De dormir. De sentir o maravilhoso silêncio.


Sabe? Pode parecer loucura, mas esse lado do confinamento, ou do que chamam de quarentena (que não é), é um bálsamo para meus ouvidos, para meus sentidos, para meu existir. 
É como se eu gritasse para o mundo: CHEGA! E ele atendesse.

Queria tanto ficar assim! Queria tanto me sentir assim, em silêncio profundo com o universo, principalmente com o Brasil, que parece sempre estar em pleno Carnaval, com gritos de socorro em plenos pulmões.


Mas as mortes! Estas não. Não a este preço. Aliás, a preço nenhum.

Nesse momento é que desaba toda a minha alegria. Quando penso na dor, no sofrimento e nessa coisa estranha que entra pelos nossos sentidos, matando justamente nossa essência  maior, a vida!

Talvez, em momentos de dor e dúvida, possamos reverberar juntos, sem perceber, com  a Oração da Serenidade, que muitos acreditam ter origem apenas meio século depois da chegada de Cristo neste planetinha estranho, maltratado e de naturezas  maravilhosas.

Tenho gostado de orar sozinha, quando me sinto muito triste.
Falar com Deus, quietinha, deitada no meu quarto, sobre qualquer bobagem, chorar, desabafar também têm me ajudado

Sim, eu me preocupo com as pessoas.
E, sim, eu me preocupo enormemente com meus filhos, noras, netos e com meu marido.
Sim, também me preocupo comigo mesma.
Sim, não estou conseguindo digerir o que está acontecendo de ruim, de descaso e de vil. 
Não, não tenho a menor ideia do que vai ser depois.
Sim, deve haver um depois.
Não, não vai ser mais a mesma coisa.

Oração da Serenidade


Deus,
Conceda-me a serenidade
Para aceitar aquilo que não posso mudar,
A coragem para mudar o que me for possível
E a sabedoria para saber discernir entre as duas.
Vivendo um dia de cada vez,
Apreciando um momento de cada vez,
Recebendo as dificuldades como um caminho para a paz,
Aceitando este mundo cheio de pecados como ele é, assim como fez Jesus, e não como gostaria que ele fosse;
Confiando que o Senhor fará tudo dar certo
Se eu me entregar à Sua vontade;
Pois assim poderei ser razoavelmente feliz nesta vida
E supremamente feliz ao Seu lado na outra.
Amém. ”

A pandemia de coronavírus levanta questões políticas, éticas e existenciais também.

Uma delas, que vem sendo colocada, e que me deixa extremamente assustada, é a da escolha de quem vive e de quem morre.

Tendo em vista recursos médicos e hospitalares muito reduzidos, a equipe médica acaba tendo que enfrentar um dilema que está muito além da condição humana, que ultrapassa os limites da ética e da moral pelos quais estamos acostumados.

No entanto, questões meramente práticas também estão evidentemente desorganizadas e claramente mal resolvidas.
Os governos conscientes têm tido uma responsabilidade  que também vai além dos limites conhecidos, pois estamos todos (viventes deste 2020) passando por algo que nenhum de nós antes passou.

A questão da ajuda financeira aos pobres também me preocupa.

A ajuda realmente chega aos mais necessitados, como, por exemplo, a população ribeirinha, aos sem-teto, aos que moram amontoados em favelas, aos velhinhos que vivem em asilos precários, aos que deixaram de receber salário por terem sido demitidos? 

Como não deixar faltar o básico a toda a população?
Até onde vai a grande responsabilidade das organizações de saúde em direção aos clínicos e, destes, aos atendidos?
Os números de pessoas infectadas e números de óbitos estão exatos?

Como controlar um país com dimensão continental, como o Brasil, associado à pobreza e a uma população onde 30% vive abaixo da linha da miséria?

Enfim, estas são apenas algumas das minhas dúvidas. Existem outras. Inúmeras outras.

Só um desabafo! 

(Fotos e texto Herta Scarascia)


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

PARA MEUS NETINHOS GÊMEOS, THEO & LEVI...!!! ou LEVI & THEO...!!!

MALU

EU MORRI... E RENASCI (a Covid mata)