40 ANOS DE CASAMENTO





Na semana passada uma pessoa me perguntou:
- Nossa! Você e seu marido já vão fazer 40 anos de casamento?
- Sim, contando um ano que moramos juntos logo que nos conhecemos.
- Hoje em dia é raro, né? Você deve ter uma história e tanto.
E eu contei por alto alguma coisa, não tudo que está aqui, e ela me sugeriu escrever no blog.

E, sim, penso que pode ser interessante, de alguma forma, deixar alguns trechos da história. Vou suspender alguns, por medida protetiva. Quem sabe, um dia, meus netos poderão gostar de ler sobre isso. Ou não.

A confluência de fatores que me levou a conhecer meu marido foi, de fato, um tanto surreal, estranha e, até mesmo, divertida. Quem acredita em carma, essas coisas de destino, de desígnio, vai gostar. Eu, eu mesma, não acredito, mas... Como dizem por aí, “yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

Vamos dizer que tudo tenha começado com meu estado de espírito que, aos 13 anos, estava péssimo. Meu pai havia acabado de sair de casa. Era um processo de desquite (este era o nome para o que hoje nós chamamos de divórcio). Minha mãe e nós, cinco filhos, ficamos um tanto à deriva. Pelo menos este era o sentimento que eu tinha na época.

Com minha mãe arrasada, meu irmão caçula, Leandro, muito devastado e inseguro, eu acabei assistindo uma menina, antes forte e determinada, se transformar em uma adolescente insegura e temerosa. Transformei-me de aluna boa para uma aluna relapsa e desinteressada.
Minha mente entendia que meu pai havia abandonado a mim, com apenas 13 anos. Eu me sentia desprotegida, dispersa e extremamente triste.

Saímos de onde morávamos desde que eu tinha cinco anos, a Vila Gianetti, em Viçosa, MG, que era um local onde eu me sentia segura por estar entre “amigos” e conhecidos, para uma casa grande demais, em um bairro nobre na cidade. Minha mãe recebeu uma carta meses depois do meu pai ir embora morar com a nova mulher. A carta era pra isso, pra deixarmos a casa. E nós nos sentimos todos muito vulneráveis. No entanto, em vez de nos unirmos, cada um foi pro seu canto. 

Eu, a única menina, única filha mulher, acabei me sentindo mais indefesa ainda, principalmente porque a sociedade, no início da década de 70, preconizava muito a força do homem, do macho. 
Eu fiquei devastada. E assim, não só minhas notas em sala de aula foram caindo muito, como também meu comportamento foi se tornando rebelde. 

Talvez eu quisesse ser enxergada. 
Olhe para mim, mãe! 
Eu estou viva, pai! 
Não me tratem mal, irmãos! 
Eu não estou bem, professores! 
Eu preciso de carinho, amigas! 

Mas eu nunca atingi esse alvo.  Mesmo com sentimento de desamparo e com deficiência nos estudos, eu consegui passar no concurso para fazer o segundo grau no Coluni, um colégio de segundo grau muito aclamado, ligado à Universidade Federal de Viçosa. Lá, nesse Colégio, então com 16 anos, por aí, eu comecei a sonhar. Sonhava com tudo o que pudesse me tirar da realidade.

Se eu havia sido criada com excelentes condições financeiras, de repente, todas estas condições foram suspensas. Infelizmente, num acordo mal feito, que eu nunca consegui entender, meu pai ficou apenas com a obrigação de pagar uma pensão (pequena) para mim e meu irmão caçula. E como minha mãe não recebia absolutamente nada, e não conseguiu trabalhar, pois sofria de transtorno bipolar (nunca diagnosticado, mas detectado pelos médicos que eu fui anos e anos mais tarde), ela usava esse recurso para que nós, os filhos e ela mesma, exceção para aqueles que já trabalhavam, pudéssemos sobreviver. 

A única, digamos, conquista, foi uma casa bem grande num bairro bom da cidade. Caso não tivéssemos nos mudado de madrugada para aquela casa, ela não seria nossa, mas do meu pai e da nova mulher dele. 
Era uma realidade muito difícil de ser compreendida por uma menina nova como eu. 

Nos anos 70, as meninas de 12, 13 anos eram realmente muito imaturas. Eu mesma ainda brincava de bonecas. Deve-se lembrar de que uma menina dessa idade, em 1973 ou 1974, era quase uma criança, como eu era, que ainda brincava de boneca.

Foi uma época de desmantelamento da dignidade, da demolição de todo o nosso senso de integridade. Não que o dinheiro que nos faltava fosse o  elemento da dignidade e da integridade, mas a dura escassez dele em pessoas que não conseguiam, da noite para o dia, refazer suas vidas, já destroçadas emocionalmente, trazia em nós um sentimento de derrota e de incapacidade até que pudéssemos nos reerguer novamente. 

A base da pirâmide, o sustento, o provedor, enfim, quem mantinha a família era e sempre foi o meu pai. Retirar essa base cria certo caos na pirâmide, que torna o sentido básico da vida totalmente inseguro e incerto. 

Várias vezes eu servi como menina de recado entre mãe e pai para que essa base pudesse ter uma mínima estabilidade. Foi uma áspera missão. Eu estava muito vulnerável. E assim, de maneira muito natural, minhas notas, no Coluni, foram caindo, e caindo vertiginosamente. Para que eu não pudesse tomar bomba ou ser eliminada de lá, não me lembro de como funcionava para casos como alunos cujas notas se tornavam muito ruins, eu saí, deixando as amigas mais queridas naquela época, e fui praticamente sozinha de volta para o Colégio de Viçosa.

E me sentia realmente muito mal. E assim vivi até os 17 anos, quando comecei a namorar de verdade. Mas todos os namorados, ou quase todos, tinham a matriz do meu pai. 
Eu não sabia disso na época, obviamente. Mas eu seguia de forma rígida o critério de namorar rapazes que pareciam ausentes, displicentes no carinho e na atenção, frios e que pareciam não se importar comigo.

A velha matriz, tão conhecida de todos, estava se tornando minha companheira. Se um moço se apresentava bonzinho, educado e muito atencioso comigo, este moço mesmo, já não servia. O molde do meu pai não era o mesmo dele.

Eu não conhecia este padrão de repetição.  Mas percebia que eu estava fazendo alguma coisa muito errada comigo mesma. Como se eu imputasse a mim meu próprio castigo.  

Aos 17 anos e meio eu fui morar em Cuiabá, perto do meu irmão e ex-cunhada (eles já separaram). Ele era professor da Universidade Federal do Mato Grosso naquela época. E eu estava bastante determinada a estudar. E queria muito estudar e recuperar todo o tempo perdido para passar no vestibular e sumir de Viçosa.  Eu estava inabalável e muito resolvida nesta decisão. 

Eu fiz minha matrícula num cursinho pré-vestibular, conhecido nacionalmente como um dos melhores, eu acho que se chamava Objetivo, não tenho certeza, mas aproveitei a chance.

Como Cuiabá sempre foi muito quente, eu estudava à noite, do lado de fora da pensão, numa mesinha que eu comprei, bem grande para colocar os livros, um abajur que iluminava muito e também um ventilador alto direto na minha cara. De hora em hora, eu tomava banho frio de mangueira, que ficava bem ali. 

Eu era tão jovem! Tão cheia de sonhos! Mas naquele momento, meus sonhos, todos eles, se concentravam em passar no vestibular. Eu estudava lá porque foi onde meu pai aceitou pagar para mim porque meu irmão estava lá, morando lá e, portanto, poderia estar por perto. 

Eu me lembro de que eu comprava um guaraná em pó, ralado e enrolado na hora, das mãos de um índio de lá, que também vendia outras ervas num cantinho da praça da igreja. Muitas de nós, estudantes, frequentava o índio. Ele tinha solução em ervas pra tudo. Eu comprava o guaraná e outra erva lá, para quando eu quisesse  dormir. 

Eu estudava tanto, mas tanto, que na época aprendi coisas que nunca aprendi em todos os anos de estudo na vida.  E me lembro de que tomava tanto guaraná em pó, em quantidade exagerada, que eu tive um “troço” dentro da enorme sala de aula do cursinho, durante uma aula de geometria analítica.
Eu tinha corrido muito, muito mesmo, porque sempre tive tendência a me atrasar, como diz o pai do Giovanni, o italiano, papá Nicola, “andiamo, Herta, stai sempre retardataria!”.  

E quando eu finalmente me sento numa das carteiras bem no meio da sala, cheia de alunos, e enorme, com todas as janelas, também enormes, abertas, eu olho para o professor e, de repente, sinto como se tivesse me descolado do meu corpo e voado numa velocidade enorme até o rosto dele, a ponto de enxergar aqueles pequenos poros do nariz, aqueles buraquinhos que algumas pessoas têm e que a gente só enxerga se estiver colado nela.  E na mesma velocidade, eu retorno, de costas mesmo, até meu corpo, que ficou lá trás. Naquele momento, eu me senti toda molhada. Era como se eu fosse pura água ou como se eu tivesse entrado de roupa dentro de uma piscina (mais tarde, contando pro meu irmão, ele me disse que tive um tal de “deslocamento”, e que a sensação de água é normal, afinal somos 75% de água. Voltando, olho pra mim, e vejo suor em algumas partes, mas o resto estava seco. Observo as pessoas ao meu lado, para ver se alguma delas havia percebido o que houve. Mas não. Todo mundo concentrado na aula. Só um rapaz, bem ao meu lado, estava rindo pra mim. Eu perguntei pra ele: 
- Você viu? Ele disse: - O quê?

Entendi que era uma coisa que aconteceu na minha cabeça. Pensei que pudesse ser porque eu não estava dormindo bem, estudando exageradamente, saindo pouco pra me divertir.
Voltei a atenção para a aula do professor de geometria, um homem bonito, com cabelo brilhante e sempre a mesma calça branca com a sombra rosa de uma cueca vermelha que ele usava por baixo. Era um homem tão bonito! Achava um desperdício ser gay.  E mais, muito inteligente para saber ensinar uma matéria tão seca, e estranha, tirar do desenho e jogar nos números. Chegava a doer em mim. Era como se tirasse da arte para por no seco. Mas mesmo não gostando, eu aprendi. Naquela época, eu sabia. Sabia todas as matérias de pré-vestibular.

Passada uma semana, por aí, eu fui comprar guaraná de novo. Contei pro índio o que aconteceu comido na sala de aula. Eu contava pra muito gente. A maioria ria. Achava que eu tinha usado drogas ou qualquer outra coisa. Não era. Eu não usava drogas. Só tomava cerveja no final de semana naquela época. E pouca. Mais nada. Queria mesmo era estudar. Mas com o índio, a gente podia contar tudo. Ele era sério e confiável. Além disso, tinha uma solução fitoterápica pra quase tudo. Ele me contou que o que eu tive na sala de aula era decorrente do guaraná. Que eu devia estar tomando muita quantidade. E quando se toma muito guaraná, além da pessoa ficar extremamente ativa, ela perde o sono e, com noites seguidas sem sono, ou dormindo mal, a pessoa vai perdendo o controle dela mesma. Algo assim. Sei que diminuí pela metade o tal guaraná. Ele vinha em formado de charuto, bem grosso, escuro, me lembro até hoje. Eu me sentia muito bem tomando o guaraná... até aquele dia.

Bem, cortando uma montanha de coisas que aconteceram em Cuiabá, uma cidade mágica na época, eu pulo logo para um parêntese.

(Antes desta história toda de Cuiabá, uma amiga chamada Suzana e eu fomos para o Rio Grande do Sul com a mesma intenção, fazer vestibular para Oceanografia. 

Por que oceanografia? Sonho juvenil. Como eu sempre nadei muito bem, modéstia à parte, até hoje, eu assistia aqueles mergulhadores no fundo do mar e sonhava que ia trabalhar com aquilo. Só isso. 

Mas lá chegando, mais especificamente na cidade de Rio Grande, nós descobrimos que era oceanologia. Eu fiquei até feliz, porque se tem uma matéria que eu era boa, boa mesmo, era biologia. Estudar a biologia do oceano, então, era um sonho duplo. Adorava as professoras de biologia, tanto do Coluni quanto do Colégio de Viçosa. 

Meu pai também me ajudava algumas vezes em questões de biologia humana, principalmente em genética, matéria que eu desenvolvia facilmente. Suzana era boa em tudo. Eu era péssima em história e geografia. Quando a gente voltava das provas, as moças e os rapazes, e nós duas, todos nós juntávamos para contar os pontos feitos. A redação eu matei. Fácil. 

As questões de português eu quase fechei. Eu não me lembro da Suzana, mas deve ter ido bem. Lembro-me dos rapazes e das moças, maioria gaúchos, porque na época ninguém despencava de Minas Gerais para fazer vestibular quase chegando no Uruguai, falando: 

- A mineirinha vai passar. Ela tá fechando tudo! Mas não havia chegado o dia das provas de história e geografia, quando a “mineirinha” fez a prova toda no “salve-me quem puder”. E ninguém me salvou. Quase zerei, pra não dizer acertei uma de geografia e duas de história.  

Óbvio que não passei. Quanto à Suzana, acho que ela conseguiu equiparar as diferenças justamente nestas duas matérias, e passou. 

Pois é. Mas como eu disse lá no início, pra quem acredita que existe um carma, ou destino, tal e qual, eu não me lembro da Suzana, acho que ela voltou direto pra Viçosa, mas lembro-me muito bem de mim. 

Eu subi para uma cidade chamada São Leopoldo, colada em Porto Alegre. Pra quê? Pois é. Não sei responder. Era um chamado, sim, era uma coisa estranha. Era um aviso. Era uma força. Por que São Leopoldo? Existe um não sei e existe um talvez saiba. Eu tinha feito, lá mesmo, na cidade de Rio Grande, um teste vocacional. Acho que devia estar me sentindo perdidinha. O teste, em 100%, resultou em área de comunicação social, enfatizando o jornalismo. Eu devo ter mostrado o resultado pra alguém, porque não tinha  absolutamente nada a ver com a tal oceanologia, e a pessoa deve, não me lembro, ter falado sobre o tal curso de jornalismo em São Leopoldo. 

Daí entram conjecturas. Como eu disse, tem um tanto de mistério no porquê de eu ter ido parar em São Leopoldo. Uma coisa é certa: um dia, eu estava na Praça do Rosário, em Viçosa, antes de sair da cidade. Estava esperando alguma amiga. E, sentada, quieta, ouvi uma voz dentro de mim, como se viesse de fora e ao mesmo tempo, estivesse dentro, dizendo: vai para o sul. Pois é. Acontece, que sul, para quem ouvir, pode ser sul da pracinha, sul de viçosa,  sul da casa, sul de Minas, sul  do planeta. 

No entanto, quem ouviu fui eu, e eu sabia muito bem que era SUL DO BRASIL. A voz estava me mandando ir para o Rio Grande do Sul, só não precisou falar essas palavras.  Chegando em São Leopoldo, eu me instalei num hotelzinho e comecei a procurar pela tal Unisinos, uma excelente universidade. Fiz minha inscrição, não sei como bateu de ser a  época exata da inscrição. E fui embora. As provas seriam no semestre seguinte).

Voltando aos fatos narrados lá trás, em Cuiabá, me sentindo conhecedora de todas as matérias importantes para fazer um excelente vestibular, eu, finalmente, vou até a Universidade Federal do Mato Grosso, com meu irmão, fazer minha inscrição. Claro que ia fazer para a área de humanas, sempre foi meu forte. Mas meu irmão, sabendo que eu dominava bem o estudo, praticamente me obrigou a me inscrever para o vestibular de medicina e segunda opção, nutrição. Eu não me importei muito, porque eu queria ir para o sul, desde aquele aviso na minha mente. E eu estava completamente determinada.

Logo depois de fazer o vestibular na UFMT, eu segui para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul. Voltei a ficar no hotelzinho. E ainda com toda a matéria na cabeça, eu fui fazer o vestibular para Comunicação Social/Jornalismo.

Fiquei lá, em São Leopoldo. Só de caminhar nas ruas, eu sabia que ali estava alguém que iria fazer com que eu me sentisse um ser humano melhor. 

Um tempo depois, recebo uma informação no hall do hotelzinho, dizendo que era para eu ligar para o meu pai. Ligo no dia seguinte para o consultório dele.

 - Herta, se prepare aí para voltar para Cuiabá. Você passou muito bem no vestibular para medicina. Seu irmão vai arrumar um lugar melhor para você ficar.

Bastante determinada, eu respondi:
- Mas eu passei aqui também, na Unissinos, pra Jornalismo. E é aqui que eu vou estudar.  Eu não vou fazer medicina porque eu não quero e não gosto.

- Você acabou de me dar um banho de água gelada. Além de pagar caro aí, você vai estudar um curso que não dá dinheiro. Isso é romantismo puro. 

Eu não respondi, mas minha vontade era de dizer:  “Romantismo é largar uma família de cinco filhos para ficar com uma moça de 19 anos. Isso é romantismo”.

Mas me calei. Por mais que os pais estejam errados no nosso ponto de vista, cabe a nós honrá-los e respeitá-los. Pelo menos é assim que eu sempre agi.

Meu pai, então, aceitou. E passou a enviar o dinheiro para o curso, que realmente era caro, e para a república que eu dividia com outras moças. Só. Se eu quisesse uma blusa nova, ou um vestido, ou um par de tênis, ou uma sandália, eu tinha que trabalhar. Até pra pagar a Aliança Francesa, que também era item de luxo, eu também tinha que pagar. 

E foi assim que comecei a trabalhar. Vendendo fichas de telefone para uma empresa. E como eu conseguia vender muitas, toda a noite, a semana inteirinha, eu acabava ganhando um plus. Saía da aula, com tudo muito frio e nebuloso, uma vontade de deitar, dormir, outras vezes num calorão abrasador, querendo uma cerveja preta, que aprendi a beber lá, ou ficar de bobeira em casa, com as meninas da república, mas ia lá, trabalhar, com um pai rico, que não enviava nem um centavo a mais do que era o estritamente necessário: comida, cama, escola. E a minha comida, muitas e muitas vezes, eu mesma fazia, de dia, e de noite, antes do trabalho, era certo que eu fazia, embora quase sempre se resumisse a ovos, salsichas, cuca. 

Nas noites muito vazias, onde minha alma perambulava entre o caos e o desconforto da solidão, eu ainda encontrava conforto nas mesas de bar, com as amigas. De novo, sempre chorando depois. Não havia uma saída hipotética, mas uma pretensa vontade de acreditar que o sofrimento da adolescência, de quando meu pai “foi embora” e tudo “desabou” pudesse, finalmente, dar lugar a um exílio de amparo e de compreensão.

A república que eu morava com as meninas ficava num bairro chamado Padre Reus, bem ao lado do Santuário Sagrado Coração de Jesus, onde tem a tumba do Padre Reus. Eu me encontrava frágil, como uma plantinha sem raízes, voando veloz ao sabor do vento. Um dia, muito triste, me sentindo órfã na vida, apegada a cervejas, cigarros e noites conturbadas, eu fui, descalça mesmo, do jeito que  estava, até o Santuário. Ajoelhei-me e acho que chorei por uma vida inteira ali.

Briguei com Deus, fiz as pazes, perguntei sobre esse tal Padre Reus, tudo em silêncio, claro que ninguém me respondeu, não havia ninguém. Mas me debulhava em lágrimas. Acho que cansei de chorar. E pedi um milagre. É tão raro eu pedir algo pra mim, imagine um milagre. Expliquei que estava ali porque tinha entendido um sinal, quase ouvindo uma voz dentro de mim. Disse também que havia deixado tudo para estar ali, e até então estava me sentindo muito sozinha. Que estava em busca de algo que nem eu sabia bem se era o que eu queria. Que apenas sentia que tinha que estar ali. E pedi, finalmente, que ele, Jesus, usasse de sua infinita bondade para comigo, que já vinha, desde os 11 anos, sofrendo muito com minha família, tão desagregada. Queria muito parar de fumar cigarro e de sair durante as noites, de maneira a cessar essa bagunça que criava na minha mente, roubando minha paz. Que eu queria uma família. E um rapaz bom, de coração bom, que me amasse do jeito que eu era, porque sabia que eu era diferente, difícil e temperamental, nas não mau caráter, não sem ética ou sem moral. Saí como se tivesse tomado um banho. Completo!

Uma semana depois, se preferir, sete dias depois da minha visita a Padre Reus:
Era um dia comum como os outros, a única diferença é que, na rua que eu e todo mundo passava sempre, a Rua Independência, apelidada de Rua Grande, a principal de São Leopoldo, batia um vento muito forte, como anunciando um inverno rigoroso. Eu tinha saído do treino do coral da Unisinos. Saudades do professor. Magnífico, em música e generosidade. Não mora mais neste mundo.

E foi justamente quando eu estava ali, naquela rua, que eu vi um rapaz lindo! Lindo, lindo! Ele vestia um conjunto de calça e jaqueta de moletom de veludo azul claro, meio acinzentado. E tinha umas riscas do lado, brancas. Tênis. Eu parei. E me fixei no rapaz. Os cabelos eram compridos, repicados, e batiam quase nos ombros. Voavam muito com o sopro do vento forte. Eu fiquei parada. No meio da outra calçada. Do outro lado da rua. Quando dei por mim, já estava quase ao lado deles. Sim, ele não estava sozinho, mas com um dos braços em volta do ombro de uma moça assim: baixinha, ruiva, cabelos muitos crespos, sardenta e branca, mais do que eu. 

E de novo ouço aquela mesma voz da pracinha de Viçosa, dizendo: - É ele, Herta. E dessa vez, eu respondo: - Sim, é ele. Tudo sem voz, só no pensamento.
Mas não posso fazer nada. Não sou completamente louca de chegar num rapaz com namorada e dizer algo. Se existe alguma coisa que eu nunca fiz em vida foi me envolver com rapazes que tivessem relacionamento com outra pessoa, como namorada, por exemplo. Casado, então, é jamais para mim.
Voltei para casa. Obviamente com ele em mente. Não dormi. Não comi. Precisava encontrar com aquele rapaz de novo.

Próximo ao Dia das Mães, eu preparei um cartão para minha mãe, e teria que levar aos correios. Avisei às meninas da república que eu iria ao correio determinado dia. Não uma, mas todas me pediram para levar os cartões delas às respectivas mães. Pus tudo na bolsa, de pano, junto com o meu. Por alguma providência, eu simplesmente me esqueci do dia certo de ir ao correio. Quando me lembrei, levei um susto. E fui correndo. Com receio de que os cartões das meninas não chegassem a tempo do Dia das Mães.

Esse dia também era um dia de ventania, prevendo inverno gaúcho. Eu suei ao chegar ao correio, mesmo  vestindo uma camiseta Hering justa, de manga comprida, preta, onde eu havia pintado, na parte de trás, o slogan do Jesus Christ Superstar/teatro, os dois anjos. E eu amava vestir aquela camiseta com calça jeans e tênis.

Ofegante, chego no balcão do correio de São Leopoldo. Coloco lá o meu cartão e mais quatro, todos para por selos e enviar. Eu percebo que as arestas dos cartões ficaram feias, amassadas, por terem ficado mais tempo na bolsa, que também não oferecia proteção.
Nisso, ouço uma risada ao lado. Pensei: o rapaz está rindo dos meus cartões enfeiados pela falta de cuidado. Que vergonha!

Quando vou falar com ele, percebo que o rapaz era o rapaz da rua, do moleton de veludo, do cabelo voando, da mão no ombro da moça, enfim, do aviso desde a pracinha de Viçosa até o momento em que o vi. Tento falar pra  ele em pensamento: - Sou eu! Mas ele não me olha. Não me vê. Não me enxerga.

Eu penso: - Ele não sabe que eu sou a moça dele. Saio devagarinho do correio, e vou andando  pela rua vazia, lentamente. Tento puxar meu cabelo pra frente, pra que ele possa enxergar o desenho do Jesus Christ Superstar, os dois anjos grandes, e vou olhando pra trás de vem em quando. Nada. Ele caminha sozinho, do outro lado da rua. Eu acho uma forma de olhar, sem me virar, através do reflexo de uma joalheria. Mas ele percebe. Já estava percebendo tudo, desde o correio. Eu dei mole.

E ele, finalmente, pergunta: 
- Tu vai pra onde?
Eu penso rapidamente: “Pra ele perceber que eu sou eu e não outra qualquer, eu vou ter que carregar no sotaque mineiro, e respondo:
 - Quê qui cê disse? Num tô intendeno.
- Tu é de onde?
- O quê? Num tô ouvino! - falei pra ele atravessar a rua.
- Espere. Já vou aí.

Est voilá!!!

Encontrei naquele moço que atravessou a rua a cumplicidade, a proteção, o carinho, o companheirismo, o amor. O vazio e os túneis pelos quais meus pesadelos insistiam viver neles foram aos poucos preenchidos pela palavra amor. 

A velha matriz, que eu sempre buscava, foi finalmente invertida pelo carinho, pela proteção, pelo amparo e pela aceitação inconteste de quem sou. Tudo o que citei no início deste texto, ele foi e tem sido todos estes anos o contrário, preenchendo os piores dramas existenciais da culpa, do castigo de não me sentir pertencente ou merecedora de carinho. 

A matriz, finalmente, foi quebrada. Da mesma forma, eu também o aceito da maneira que ele é. E também o amo, como marido, companheiro, pai dos meus filhos e avô dos meus netos. 

Acredito que aquela voz dentro de mim, na pracinha de Viçosa, há 41 anos, era algo real, mas como funcionou e de que maneira ela agiu, isso vai continuar no campo da fantasia, do mistério ou da fé.

E a partir desse encontro nasceram Lucas, Pietro, Bento, Theo, Levi e Malu.  E uma união que, este ano, faz 40 anos em abril.

Obrigada, Deus!   

Comentários

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Herta, meu amor...sem palavras...uma história de verdade, sofrida mas feliz, dura mas incrível....quantas noites e quantos dias, meses que voam a se transformam em décadas...Tudo parece hoje, "reacontecendo" para o nosso eterno encontro (que aconteceria mais cedo ou mais tarde). Agora é hora de ressignificar, de reconstruirmos o tempo que nos chama mesmo que a idade insista em entregar seu preço, mesmo que os impossíveis insistam em querer surpreender nossa fé. Eu verdadeiramente te amo.

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  3. Divino, amei . Que narração perfeita Herta, vocé escreve muito bem. Foi gostoso de ler, fiquei encantada mesmo. Parabéns. Vocês dois são lindos e formaram uma linda família. Bjos

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    1. Olá! Muito obrigada pelo comentário. Eu não consigo ver quem é você, mas agradeço imensamente pela sua participação, tão carinhosa, tão atenciosas!

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  4. Acho que eu não conhecia a história do encontro de vocês. Era pra ser, né? E está sendo muito lindo, eu sei. Beijos para os dois.

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