ELA E ELA, OPOSIÇÃO E COMPLEMENTAÇÃO


Foto: Herta Scarascia

Dizem-na aonde ir, o que falar, o caminho a seguir.
Dizem-na qual mundo é o melhor, a luz a seguir.
Dizem-na tanto, que ela já está surda.
Uma surda sorridente. Às vezes, chora.
Finge que ouve. Mas ouve o silêncio dentro dela.

Cria silêncios.

Caminha no seu mundo, escuro, claro, chiaro/scuro.
Muitas vezes em náuseas.
Gengibre, limão, cravo-da-índia, folhas de hortelã.

Com agrado, expurga dela o que não quer ver
Nela...

Foto: Herta Scarascia


Nos crepusculares momentos de solilóquios
Ou de pura solidão.
Então, deixam-na.

Já teve momentos de apego aos dogmas, aos ritos humanos, ditos supra humanos, num limbo de sombra e meia luz, de dúvida e de fé.
Também não aceitava palavras mágicas, tolas, que vendem nas esquinas dos desavisados, como barganha para uma alegria falsa, que não cabe em mentes inquietas.
E sofria.

Todos, absolutamente todos, estão longe dela. E ela, deles.

Ela vem procurando comprar uma linearidade, em forma de comprimidos, pelas farmácias de esquinas. O que encontra são rebotes.

Sua verdade não soa bem.

Ela acha que vive um holograma dela mesma, um espectro projetado em tardes quentes e noites vazias, onde insiste em dormir.

Nos sonhos, mastiga feio. A comida sai da boca, feia. 

Mas é sonho, Herr Freud. É sonho, Herr Jung, diz ela, em tom sarcástico.
E quem está aqui para decifrá-los? E quem se interessa?


E como sabe que seus sentidos são sentidos, encabula-se em si mesma, em águas espalhadas, em quimeras, em locais desconhecidos, aos delírios, em nudez vergonhosa, em utopia.


Foto: Herta Scarascia


Ela sempre observa o ocre dos armários datados. 
E é ali que ela vive.  

Naquele balde enorme de lençóis, em meio a dores alienadas, estranhos repuxões,  formigamentos espirituais, zumbidos causticantes... 

E um monte de dentes precisando nascer de novo.

A não unidade já é conhecida, mas toma logo essa eutimia, mulher, pra dar descanso à alma inquieta.E aos outros também.

São minutos, frações deles, hiatos de paz, mas guerra sempre, entre esses eternos minutos, horas, dias, meses e anos.

Vê sempre algo vago a procurar o que não existe mais.

Entre o obscuro e o incompreensível, talvez decorrente do tolo existencialismo, encostado lá trás, no passado, quando tudo se abriu sob os pés, muito adolescente pra cercar um axioma perdido entre os nãos que a vida trouxe, ela diz que sente, sim, algo alijado pela falta de fantasias.

De sonhos!

Foto: Herta Scarascia


Ela surge, pra ela mesma, muito clara num lago profundo. 

Bem lá embaixo, água doce agora. Nada salgado, talvez só as lágrimas, pra tentar ganhar um pequeno arco íris na alma.

Mas no fundo, e todos sabem que o fundo nos mostra o que muitas vezes não suportamos ver, ela encontra água gelada, apesar do calor excruciante no raso.

Vê uma alma, sim. 

Ela pode ver a sua alma, tentando se salvar, se apegando ao sentido e ao movimento da água, que é o inconsciente e o feminino, este último esmagado por anos pelas estúpidas testosteronas que mal se davam conta da sua própria mal construída virilidade.

E, mesmo então, vê isso, sempre, como o eterno Mito de Sísifo.

Mas não é bem à procura dela mesma que está.

Já esteve. Já se perdeu. Se encontrou, se perdeu novamente, e assim tem sido.

Uma parte dela luta pela liberdade sonhada desde muito nova. 

Outra parte sabe o preço dessa liberdade, e não pretende pagar por ele.

E eis que surge a outra.

A outra que mora nela mesma.




E esta está em alforria.

É tão rara!

Vê o sol, sem se arder. E a lua, sem nudez.

Sente o perfume das flores, sem fastio.

Se encanta com cada canto.

Natureza. Pureza.

E nela reluz lágrimas ao ouvir "Beethoven's Silence", que não é de Beethoven.

E dança. 

Dança, dança, dança. 

Gira, gira, gira e gira.



Foto: Herta Scarascia


Ouve suas próprias gargalhadas, jovens e leves. Também gosta de rir de si mesma.
Ela faz graça, piada. E costuma ser vista por aí tentando fazer todos serem felizes, parecendo fazer com que o mundo fosse um planeta um pouco mais embevecido de cor e de música.

É ela que sente o peito pular pra fora quando vê rostinhos de crianças, as mais amadas.
E também é ela que gosta de andar na chuva, mas sem relâmpados, sem trovões, apenas a chuva, boa e calma, nutritiva. Aquela que faz tudo voltar mais verdinho ainda.

E também é ela que sabe nadar, e nunca se esquece de como nadar bem.
Que é capaz de atravessar uma piscina bem grande por debaixo d'água, ou mesmo um pedaço grande do mar altivo.

E é a que sumiu, e que gosta de brincar de se esconder, é esta a que mais sorri. 
E sorri só de sair de si, às vezes viajar na mente, no campo, nas montanhas e mares...
Pisar as pedrinhas das cachoeiras puras de águas geladas e sentir as borboletas brincando de efemeridade. E ver as gentes simples.

Mas ela se vai, assim, como num rompante de voo. 



Foto Herta Scarascia




Mas volta como uma deusa da terra.

A que está aqui esqueceu-se dos passos de qualquer valsa, até mesmo os passos de um belo caminhar. 

Ah, que coisa! Ela perdeu as festas da mente e todas as nuances em azul ou verde. Perdeu até mesmo os passos de um belo desfile de flores sorridentes.

Esta, esta mesmo, perdeu as festas da mente, as que rodeiam as madrugadas e as esquinas afrodisíacas de desejos em dó maior.

Ela perdeu até mesmo a brincadeira das ondas do mar, a espuma branca e leve deixada pelas ondas, como presente a cada pisada em areia fofa. 

Perdeu o sorriso dos meninos, as montanhas e o brilho do amanhecer em gotas de chuva macia ou de sol delirante.

Suas gargalhadas, ora jovens e leves, girando e valsando por lá e por aí, bateram em retirada.

Parece que a mulher viajou. Levou todas as malas, credos, santos e demônios.

E foi sem destino.

E de lá, quiçá, ela manda pedidos de socorro. Mas não esperneia. Não se apruma.

Está em silêncio. Mesmo viva, está morta.


Foto: Herta Scarascia


Tenho receio de constatar que tudo isso se encontra em meio a um mistério chamado vida. A dualidade do ser. 
A busca pela sonhada eutimia. 
Pelo equilíbrio desequilibrado desde o nascimento de todos.

A vida nunca foi brincadeira, exceto quando se torna a vida uma brincadeira, levando a sério somente o que deve ser sério. E, pra dizer a verdade, quase nada é tão sério assim.


Foto: Herta Scarascia

Estranha, estrangeira, com a sua verdade maculada, a mulher que está aqui ouve mais os barulhos dos ventiladores dos tetos, do ar condicionado e das bobagens ditas por aí.

Ela não se sente mais confortável. Não sente mais vontade de ler, de pintar, de alguma arte tão deliciosamente prazerosa no outrora. A fotografia, tão cheia de sentidos, perdeu-se num beco escuro e lodoso, de onde o fastio se faz seu governante.

Tudo é enfado.

Alguém roubou seu lugar ou ela se roubou?

Tosco preço da estranheza, do rastro de um perfume que ela achou existir nas arestas do tempo.

Semear sensibilidade, viver o ócio intelectual, ouvir a história de gentes do campo, que vive à beira de um fogão à lenha.
Conversar com calma. Calma.

Calma...

Será que ela está internada em um hospício particular entremeado de sua própria loucura?

Ah! Esta mulher não pode nem mesmo ser colocada em uma camisa de força, pois se rompe, se dissolve. 

Não se sabe o que se quer. Não é lucida e não se quer.


Foto: Herta Scarascia


A outra parece estar exilada em paradisíacos lugares idílicos. 

Paisagens comuns e outras mais exóticas. 

Ela se cria e se recria.

É poeta ao cair da tarde.
Quer colo à noite.
E ama sem vergonha, sem pudor, suando peles e se entregando em corpos que se deliciam em paixões vulcânicas. 
E passageiras.

Êxtase carnal, onde o máximo do prazer se encontra na troca de olhares e fluidos, salivas, bocas, nucas, ventres, coxas... e os braços masculinos! 
As mãos masculinas! O olhar masculino! Coxas, paixão. 
Na sua mais pura manifestação. Tão passageiro como o gozo que se tem.

Alguém roubou desta daqui o lugar deste prazer. Ela não sabe mais que isso existe. 
Ou sabe?

Se sente ultrajada, jogada em leito infértil.

Alma canhota em masmorra doente.

Mesmice incrustada em culpa, medo e descaso. 

E, principalmente, de não se encontrar em outra. De não ser inteira.

Esta, a que está, briga consigo. Não se entende.


    



Onde anda esse sujeito oculto, e sempre indeterminado, que sempre consegue se livrar das amarras do ego, cumprindo bem o seu papel nesse teatro do absurdo?

Mas, enfim, ela se enfrenta, e se vence, porque a mulher que está nela não aceita viver entre tarjas, em sonos letárgicos, alienados, desconectados... esperando que, ao acordar desses “analgésicos da alma”, ela finalmente se estranhe e, ao olhar para si, se encontre, em duas. 



Foto: Herta Scarascia


  E sem lutas, em calma.      Calma.    Em silêncio...


  Mas determinada, como sempre.

  Elas acertam o passo, retomam o compasso. 
  
  E se entregam a si, apenas por saberem-se vivas.

  E, então, inteira!




(Herta Scarascia)


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