FREUD E A TERAPIA VIRTUAL


Olho à minha volta.

Consultórios de médicos, dentistas, salas de espera, de exames, hospitais, centros de lazer, praças públicas, aeroportos, filas para qualquer coisa, bares, salão de beleza, cafés, enfim, em qualquer lugar desse mundo enorme, em qualquer país que já tenha pisado, qualquer estado, cidade e até em lugares minúsculos, cidadezinhas perdidas, vejo a mesma bizarra cena.

Todos parecem estar absortos em aparelhos que lhes tiram da realidade em que vivem.

 Caos, deus da mitologia grega (foto web)

Eu mesma já me encontrei assim. No afamado e aclamado Facebook, onde eu me encontrava ao mesmo tempo inteira, aos pedaços, encontrava-me também perdida.
Em tempo e em falta de tempo. Vivendo e morrendo. Angustiada e em gargalhadas. Em tristeza profunda, vergonha e, quase sempre, em vontade de desaparecer dali, como se eu estivesse tendo um surto de Lady Godiva em plena Avenida Paulista domingo, sem o charme e a idade dela, sem a história me cercar de louros e condecorações. Apenas uma vergonha íntima, minha, própria de quem já se sente descolada do lugar, das pessoas e do contexto todo.

Era um suplício maior da hora exata em que eu desligava tudo e tentava dormir. Era o encontro comigo mesma. Culpas, raivas, alguns raros sorrisos, pena, tristeza e toda a sorte de sentimentos que não aconteceram, de fato, mas que eu criei a partir de mim mesma pelo que eu acreditava ser.

O que nós, hoje, estamos fazendo com a gente é o que todo mundo fez consigo mesmo ao longo da história: fugir da realidade.
A realidade não é aconchegante, não nos acaricia, não abranda a nossa dor, não reponde às nossas eternas dúvidas e questões existenciais. Além disse, a realidade maltrata, bate, escorraça, açoita, como um algoz faz com um escravo que nem mesmo sabe por que é escravo, por que está amarrado a um tronco da vergonha, vertendo sangue à cada chibatada.

A vida não é um carnaval, não é uma dança, não é um tango, não é festa.

Saía daquele lugar. Fiquei dias e meses fora. Voltava novamente.
Percebi muito rapidamente que se tratava de um vício. Um novo e estranho vício. Como não me suporto sendo dependente de algo que considero muito fácil de controlar, como a bebida, o cigarro, as drogas ou esse mundo virtual, implodi aquele lugar.

Eu até que tinha construído um tipo de diário, como aqueles antigos, onde se escrevia de tudo, inseria músicas, ideias, os “amigos fantasmas”, como aqueles que a gente conversava quando se é pequeno, da imaginação mesmo.

Implodi. Não existe mais.

E que diferença fez? Nenhuma. E que diferença faria se eu continuasse?
Talvez eu não tivesse conseguido parar de fumar.
Talvez a ansiedade fosse muito maior.
Talvez minha dose de paciência já tivesse se esgotado.

Talvez eu não estivesse lendo tanto, ou assistindo a tantos filmes, ou não fazendo companhia às pessoas que, de fato, precisam de mim e eu, delas.
Talvez um monte de coisa, menos aqueles sentimos de menos valia e de pré-julgamentos entre mim e eles, e entre eles e mim.

O mundo não me apetece da forma como está.  E acho que pode ter relação com essas atividades virtuais. Todas elas me cansam.

Cheguei a abrir um FB fake, para ver como as coisas andavam. Mas está feito chinelo velho, largado no quintal, mordido de cachorro, mijado e sujo, molhado de chuva, de sereno e ressecado pelo sol.  
Inútil.

Eu não tenho a quem ver, a não ser uma amiga, que talvez goste da política da forma que eu gosto.  Gauche! E só.

Por que estou abordando essas questões do mundo virtual aqui?

Porque o mundo está e é assim: “ouça super Pop Virtual de Fulana de Tal, Sinta o Batidão de Fulano no Palco MP3, Deezer reúne clássicos do cinema e indicados em playlists, Virtual Guitar para iPhone imita sons de qualquer guitarra que você quiser. O GB é um software indicado para quem está passando de um nível médio para avançado em ferramentas de produção. Seu funcionamento é o mesmo dos grandes.... com  sequenciamento como os Logics X e os Pro Tools.



E trilhões de milhões de ofertas de toda a sorte de serviços que os softwares fazem na maior facilidade, para que você, humano, quase não precise pensar mais.

E tudo isso fora as questões mais profundas, em nível de mente, emocional, tudo oferecido em um menu virtual, em uma lista que se torna infindável:

. Psicólogo: atendimento online e orientação psicológica. ntre no site seguinte...

.  Através da Telemedicina é possível “acessibilizar” (sic) um programa terapêutico de excelência. 

. Para salvar sua vida, entre em contato com... 

. Está se sentindo de mal a pior? Sua vida está sem sentido? Entre em contato conosco: www...  

. Conversar alivia o coração e pode ajudar a encontrar a melhor solução!
Atendimento online especializado em casos graves de solidão e doenças autoimunes. Abra nosso site: ....

. Psicóloga/Psicanalista. Atendimento online de qualidade. Referência em toda  Minas Gerais. Psicoterapia, Terapia de Casal, Depressão, Ansiedade.
Agende sua sessão pelo telefone...

. Saúde mental para quem não tem condições de pagar é aqui, no...

. Psicólogo virtual: aplicativo que oferece terapia online...

. Exercício para angústia, ansiedade, depressão. Terapia online. Entre em contato com...


. Algumas coisas não podem esperar. Psicólogos(as) é uma delas. Se você se sente: deprimido ou estressado, procure ajuda. A equipe da psicóloga Dra. Fulana atenderá você imediatamente, oferecendo ajuda e apoio. Entre em contato online. Todo o tratamento será virtual, e você receberá apoio    de qualquer um(a) dos(das) nossos(as) psicólogos(as) 24 horas por dia, de segunda a sábado.


Bem, acho que exemplos não faltarão, e charlatões também.
Perderei tempo aqui.

O mundo mudou os conceitos de absolutamente TUDO, depois de todas as eras de revoluções. E desde da revolução industrial até hoje, então, foram muitas as mudanças.

E vai continuar sendo assim.

O que acontece é simples. Há aqueles que se adaptam e sobrevivem, como os animais e plantas que se adequam ao novo habitat e às novas mudanças em seu próprio organismo para que estas adaptações ocorram; e há aqueles que não se adaptam. Simplesmente não se sustentam às novas ordens naturais da vida, sejam elas vistas como algo “odd” ou medonho mesmo, ou naturais.

Eu faço parte do segundo grupo, embora esteja agora sentada de frente para um computador, do tipo simples, tela grande, PC, usando um word, também rudimentar, para escrever  para pessoas que chamam oito ou dez linhas de "textão".

Tentando escrever para um novo humano que surgiu que não consegue ouvir mais do que 2’00” de áudio, e ainda assim, acredito, não vão até o final.

Acho que as pessoas estão intolerantes, inflexíveis, impacientes, autocentradas, vaidosas, narcisistas, enojadas, cansadas, fastiadas. 



O pensar sobre si, o olhar sobre si, o viver para si torna o seu mundo não só vazio, mas também estranhamente doloroso.

O homem de hoje caminha descuidado e desastrosamente para o maior abismo: 
o dele mesmo.

Todas as revoluções pelas quais os homens e mulheres já passaram deixaram marcas indeléveis, mas também deixaram algum gosto de vitória.

Fico imaginando: qual tipo de vitória o ser humano poderá ter quando seus olhos parecem refletir apenas cifrões, espelhos e selfies?

Na nossa era, esta época miúda de pensamentos próprios, de conhecimentos rasos, e de contatos superficiais, o homem se empobrece e adoece mais.

E, ironicamente, vai buscar cura aonde, exatamente? 
Nele próprio?

Como ele próprio, já doente, pode curar a si se sua alma, emoção e físico estão pedindo socorro?

Pedir ajuda a quem? A Deus? 
Como, se ele ama  a Nietzsche mais do que nunca, sem entender nada do filósofo,  além da aclamada frase:  Deus está morto

Frase desconectada de todo o contexto do livro, até mesmo da frase inteira. Nietzsche não era estúpido. Talvez um pouco intempestivo. Mas não louco. 

O Deus que ele se referiu como morto é o Deus que o homem construiu. Este, sim, já nasceu morto. Não o outro, aquele que não conseguimos entender, aceitar e suportar no que chamamos de silêncio e injustiça.

Nas grandes revoluções das últimas eras, o homem se viu tão achado e, brilhantemente, tão potente... e, em seguida,  tão perdido novamente!

As novas revoluções, nas áreas humanas novamente, foram desenvolvidas porque o ser humano não se basta. E nunca vai se bastar.

No final do século passado, século XX, as informações andavam aos borbotões, em abundância. E foi justamente por causa dessa demanda que foram “reestruturadas” as novas eras digitais.



Mas elas não começaram assim, de repente e do nada. Não chegaram em cima da hora, trazendo tantas informações e causando tanto impacto.

Como quase tudo na vida, foi um processo. E um processo lento, que começou numa época propícia, em plena Revolução Industrial.  
A terceira, para ser mais exata.

E esta terceira revolução, também chamada de revolução informacional, acabou fazendo um reboliço muito maior do que qualquer outro tipo de revolução que já tenha ocorrido na história da humanidade.

Foi um momento em que se falava muito em globalização. 
Lembro-me bem de pessoas me perguntando:  
“você é a favor ou contra a globalização?” 
E eu, meio incrédula com a pergunta, respondia sempre a mesma coisa: 
“Não é uma questão de ser contra ou a favor. É um fato. Imutável. Irreversível.”

E naquela época todo mundo começou a pensar, trabalhar, a se relacionar, enfim, a ser diferente do que era.

E como eu acho que tudo na história seja um caminho, um processo, vejo agora uma nova fase, não tão bem utilizada. Uma fase mais democrática, sim, contudo, perigosamente mal utilizada.

Esses vieses da computação para todos, da abertura de um mundo onde  cada um  de nós tem acesso a tudo, esse mesmo mundo se transforma facilmente em uma faca de dois gumes.

De longe sou uma censuradora, embora seja a favor de se controlar  o que uma criança possa ou não ter acesso até que tenha noção e idade para saber ou pensar que sabe o que quer ou não quer.

Nessa nova ordem, que por muitos já é chamada de 4ª revolução industrial, eu fiquei de fora. E quero ficar.

Como reportei acima, faço uso de poucos instrumentos: as edições de imagens para as fotografias, que superam qualquer coisa que se possa imaginar, as próprias máquinas fotográficas, que estão sensacionais, os acessos a museus, arte, pinturas, poetas, muitos deles jamais pensados  existir, poesias esquecidas, poder criar um blog, como eu criei este, tão pouco visitado (rsrs), mas é meu diário de vida para a posteridade. E só. Penso em criar um site para repousar, de forma organizada, as minhas infinitas fotografias.

Foto de uma página do meu blog


Diário e site que, muito provavelmente, desaparecerão, como todo o que fica nas chamadas “nuvens”.

E o que importa? Se eu sou mortal, o que dizer sobre coisas, pensamentos, rabiscos!

Valem-me bem enquanto pego esse cajado e caminho sei lá pra onde.

Cervantes fez Quixote dizer: “A caminhada é muito, muito melhor do que a estalagem”.

Voltando à nossa era e à minha incapacidade de lidar com essa gente grudada nos celulares, em mesas de restaurantes, à  noite, entre pares, casais, esse povo que já não se toca, não se fala, não se reconhece mais, me vejo sendo obrigada a parabenizar meus filhos pelos aniversários via WhatsApp, pois eles mandam mensagem dizendo que não podem atender o telefone, pois a demanda no trabalho e em casa, com os filhos pequenos está consumindo o tempo deles!!!

Quanto mais essa gente inventa uma forma de ganhar tempo por meio de informação digital, menos tempo eles têm.

Às vezes, fico imaginando, como eu, mais nova, solteira ainda, morando no Rio Grande do Sul, estudando jornalismo na Unisinos, tinha tempo para as saborosas trocas de cartas escritas a mão com minha mãe, meu pai, amigas, irmãos?

Eu tinha tempo para ouvir as amigas que estavam presentes. Tempo para estudar, cantar, dançar, dormir, ouvir música no gravador a pilha, passear nos finais de semana, pegando ônibus até as praias de Santa Catarina. Inscrever-me na Aliança Francesa, no coral da Unisinos, de cuidar de mim, fazer ginástica, correr em volta do bairro que morava.

E depois de casada, cuidar de dois meninos bem sapecas. Estudar novamente. Curso de Letras e Artes na UFV. Trabalhar oito horas por dia. Sair do trabalho e entrar numa sala de aula apertada do PVA.

Sentir fome, sede, cansaço, vontade de tomar banho e ainda chegar em casa e cuidar dos cadernos e estudos dos filhos para, finalmente, conversar com a senhora que cuidava da minha mãe, com Alzheimer, para ver se tudo deu certo.

Sentar-me ao lado da minha mãe na cadeira de rodas, com depressão catatônica, Alzheimer e tantas outras complicações, segurar a mão entortada pela artrite reumatoide, segurar o choro, o cansaço...  e ainda, depois do banho, carregar os livros pra cama, estudar para as provas, algumas só em Inglês, literatura inglesa, americana, portuguesa e brasileira.

Não havia Google. Era um enorme dicionário, outros livros de apoio, alguns de literatura de base, todos enchendo a minha cama, misturados com os livros de Direito do Giovanni, que também fazia Direito na UFV. 

E junto com tudo aquilo, as vozinhas dos filhos sempre perguntando, questionando, contando caso, enchendo a minha vida de cor e sabor.  

Meia noite, uma hora... e os filhos misturados com os livros, com os cadernos, deles e nossos... e os gritos da minha mãe, pedindo água, porque a senhora que cuidava já havia ido embora.

Fora os horários de dentistas, de vôlei aos sábados, de ginástica nas noites que minhas aulas não tomavam todo o horário e as visitas ao meu pai, para ouvir sobre ele: eu sou bom, eu fiz isso, eu não sou ansioso como você. Você tem que aprender a ser mais calma. Você não vai conseguir... Você é isso. É aquilo.

E eu tendo que perdoar, pois era um homem que lutou para estar onde estava e não recebeu educação e essa coisa chamada sensibilidade afetiva para repassar aos filhos.

Era bom médico, mas um pai com dificuldades emocionais por falta de saber ser.
E apesar de tudo, eu tinha tempo. Eu arrumava tempo.

Como agora, em plena era virtual, os filhos, as amigas, os parentes, enfim, as pessoas já não têm tempo para ler o que chamam de “textão”, ou ouvir um áudio, que eu tento, a todo custo, não ultrapassar os famosos 2 minutos de tolerância.

Ser concisa, Herta. Herta, você é prolixa.
Herta, você escreve demais.
Ninguém aguenta.

Fico imaginando. Toda essa gente, sem paciência para ler, para ouvir, para sentir o outro, para ser empático, humano, enfim, essa gente consegue pegar um livro, e ler? Essa gente está lendo?

Essa gente está perdendo as maravilhas de Cem Anos de Solidão, de García Márquez, de Dom Casmurro e de Memórias Póstumas de Brás Cubas, do grande Machado de Assis, de Crime e Castigo, de Dostoievski, dos poemas de Fernando Pessoa, de Cecília Meireles, de Drummond e de uma infinidade de maravilhas... porque ultrapassam o limite de “textão”.

Voltando ao tema da nova era digital, eu tenho total consciência de que em inúmeros setores, como no da agricultura e do meio ambiente,  houve um avanço significativo que fragmentou, particularizou e desenvolveu setores importantes como a economia de vários países.

Por outro lado, afinal tudo tem dois lados, sem querer parecer maniqueísta, essa nova ordem, esse novo modus vivendi,  tem causado muitos estragos na vida pessoal das pessoas físicas, em geral.

O jeito de pensar, de agir, de se relacionar e de se consolidar-se como um ser único e, ao mesmo tempo, social, está em desalinho, em desencontro.

Uma das piores consequências do novo mundo virtual está justamente no impacto sobre o ser humano.

Há um novo sentimento que afeta cada um de nós, principalmente nos que lidam com redes sociais que é o pavor e a insegurança, pois se veem lidando com contratempos e com um tipo de agonia que circunda as relacões e os contatos, quase nunca físicos, não tão conhecidos, principalmente no campo afetivo. 

Além disso, pelo menos no meu caso, o que me levou a uma exaustão física, emocional e, acredito, até mesmo espiritual, foi a enxurrada de informações, extremamente superficiais, rápidas demais e numa quantidade impossível de contabilizar.

Foto web

O estresse, nesse caso, é quase sempre inevitável.

Outro fator a ser lidado é com a mentira, ou mentiras. E são em abundância.

Nesse mundo virtual, é muito fácil esconder-se.

E, escondida, a pessoa pode se apresentar como qualquer coisa, até como um cactos falante.

Se por um lado houve certo conforto por causa da fácil acessibilidade às informações, por outro, o mundo ofereceu uma sombra gigantesca, onde as informações podem ser adulteradas, falseadas e onde, por este canal, algumas pessoas podem se esconder sua identidade e fazer o mal que, de fato existe dentro delas. 

São as trevas para a mortificação (real, muitas vezes) da emoção e do estado de espírito.

É uma onda que se avoluma. É um lugar bem gostoso para os psicopatas se instalarem e fazer suas festas de comando e controle de “presas”  desavisadas.

A internet, as redes sociais e outros endereços semelhantes estão tornando tudo possível, até mesmo o suicídio.

Os tratamentos terapêuticos estão abordando muito a questão das redes sociais.

A grande maioria dos terapeutas pede, senão manda, que o paciente abandone o local onde ele está se sentindo inferiorizado, humilhado, maltratado.

O velho tratamento freudiano, a psicanálise, está retornando, trazendo “uma noção renovada de inconsciente, e as urgências contemporâneas têm nos mostrado as dimensões políticas dessa noção. 

Uma das consequências fundamentais desse processo é a necessária reformulação do conceito de liberdade em um mundo onde a autonomia não parece mais ser vista como horizonte da ação racional”.
 (Vladimir Saflate, filósofo)

Acredito que Freud trataria todas essas questões, muito provavelmente, de forma a tentar eliminar todo e qualquer elemento que pudesse moldar a emoção, no mundo virtual, que estivesse tornando a pessoa em um ser mais atormentado.

E por falar em Freud, neste universo onde estamos instalados, Narciso tem sido o deus mais aclamado.

Na atualidade, as manifestações clínicas do sofrimento psíquico são bem diferentes das histerias com que Freud se deparou durante os tratamentos na sua época.

As queixas mais comuns dos pacientes de hoje formam um leque contendo depressão, ansiedade, vazio existencial, falta de sentido na vida, baixa autoestima, menos valia, alcoolismo e abuso de drogas lícitas e ilícitas, como o excesso de psicofármacos e de analgésicos.  

Este contraste entre o que é bom e necessário no mundo virtual, e o que está adoecendo os homens, neste mesmo mundo, nos leva a questões como: será que as formas do novo sofrimento humano mostram que a psicanálise, tal como nos apontou Freud, está, de fato, ultrapassada ou sendo obsoleta para abordar dores e angústias causadas por elementos dos dias de hoje?

Não sei. Mas acho que todo e qualquer estudo que premia o inconsciente, onde guardamos a maioria dos nossos estragos, merece atenção especial.

Não concordo, no entanto, na aplicação da psicanálise na forma como usada no tempo dele. Um tempo mais lento, em que Freud se dedicava por mais de duas horas por dia a um único paciente, e quase todos os dias, sendo a grande maioria mulheres em estado de histeria, gerada pelos elementos da época deles.

Hoje, os profissionais deveriam fazer uma releitura de Freud e uma reaplicação de todo o seu enorme conhecimento sobre a psique humana na busca, senão da cura, do alívio dos sintomas que sofremos hoje em dia.

O famoso “mal-estar” citado por Freud parece ser algo inerente ao ser humano.
Não é que, em tratamento freudiano aplicado aos novos sofrimentos deixaria o ser livre desse mal-estar, que também chamo de náusea sartreana?!

Como o próprio Freud disse: esse mal-estar, esta náusea, essa inadequação é inerente ao homem no mundo (descrito por Freud).

Acho, contudo, que Freud ainda é o maior e o melhor caminho para tentar se localizar nesse mundo, seja o da época dele, o antes de Freud e o pós Freud, o agora.

O inconsciente é a parte baixa do iceberg. É de uma enormidade e de uma falta de conhecimento enorme.

Não que tenhamos condições de revolver o que está oculto, mas com boa vontade, bom senso e bom profissional, podemos, sim, aos poucos, cortar lentamente arestas e nódulos que vão ser formando ao longo desse iceberg até atingir a parte consciente.

Tudo isso antes que esses males se tornem extremamente insuportáveis.  
As mudanças culturais, na minha opinião, conseguiram apenas mudar alguma forma de expressão desse contínuo e cansativo mal-estar, que eu prefiro chamar de náusea sartreana.

Freud sempre será inclusivo, amplo, contemporâneo e efetivo.
E bem-vindo!

Foto: Matilde

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