EM QUE IGREJA CABE JESUS CRISTO?
O
profeta nascido há mais de dois mil anos, que dividiu a história da humanidade,
pelo menos a Ocidental, em antes e depois dele, não fazia parte de nenhuma
família de sacerdotes, nem tampouco de nenhuma casta religiosa.
Naquela época,
os doutores das leis, os fariseus, muito respeitados por conhecer a religião e
seus estatutos, estavam longe de aceitar o que pregava Jesus, o tal
“revolucionário”, o “causador de conflitos”, o “quebrador dos sábados”, o que
“escandalizava”, pregando fora dos templos sem ter feito “Faculdade Superior de
Deus”.
Jesus
assumiu uma postura crítica frente às colunas que sustentavam o judaísmo
imposto. Ele chegou a este mundo de forma extremamente simples, porém
extraordinariamente escandalosa. E veio não para criar uma religião, mas sim
para falar sobre uma nova filosofia de vida. Veio para se oferecer como remanso
para as almas cansadas, com “jugo suave e
fardo leve” (Mt 11.30).
Falar do reino
de Deus foi o que Jesus mais fez em seus parcos, porém fartos três anos de
pregação. Coisa que até hoje não foi bem compreendida. O reino do céus,
justamente o que há de mais importante, trata-se de um estado de espírito a ser
formado dentro do ser humano. Nada excepcional! Nada do outro mundo! Nada transcendental!
E por que
ninguém quer, pode ou deve entender isso? Será que convém? Também pudera!
Fazer-se homem para inverter o establishment,
não só o sociopolítico, mas também, e principalmente, o espiritual não é tarefa para
qualquer um, principalmente em se tratando de um povo já sufocado por regras e
leis e ainda sob a pesada opressão do império romano. É como se um de nós tentasse ensinar equação
de segundo grau a um grupo de macacos em mata fechada.
Mas ele fez, e
de forma magistral, usando de parábolas, que é o meio mais eficaz de alcançar
os dois hemisférios do cérebro humano, tanto o direito, o da razão, quanto o
esquerdo, o da emoção.
No entanto, os
homens não entenderam nada até hoje,
pois impingem insistentemente Jesus para dentro de uma religião. Empurram o que
ele disse para dentro de rituais, de estatutos, de doutrinas, de leis e de
dogmas de igrejas, onde muitas delas mais se transformaram em clubes, em pontos
de shows, de “descarregos”, locais de abuso moral, financeiro, social, ético e,
pasmem, espiritual. Muitas delas precisam mais do diabo do que de Deus para
sobreviver, transformando-se numa verdadeira pandemia de demônios. Outras, mais “comedidas”,
intelectualizam a graça de Deus e perdem a noção do verdadeiro relacionamento
humano, confundindo funções e cargos (como símbolo de status e honraria) com o
verdadeiro espírito do amor.
E Jesus? Onde fica? Ah! Sim! Ele é o pano-de-fundo desse teatro todo.
Afinal, algumas igrejas, as triunfalistas não assumidas, por exemplo, não sabem
lidar com o sofrimento e a dor e precisam de um “elemento comum” para unir as
pessoas, já que nos seus “clubes de alegria e música” não costumam ter piscinas
nem saunas.
Com certeza, isso está há anos-luz da
pregação de Jesus Cristo. Deus não mora em igrejas.
Como disse Nietzche: “O homem criou e
matou Deus.” Agora entendo. Ele se referia a esse Deus aí. O Deus-pano-de-fundo
para a festa secular continuar. O Deus pano-de-fundo para o furto dos “desavidados”.
O Deus pano-de-fundo para a venda das modernizadas indulgências. O Deus
pano-de-fundo para os piores tipos de exploração: a emocional e a espiritual. O
Deus pano-de-fundo para enriquecer novos bispos e novas universais.
Retomando a
pergunta “em que igreja cabe Jesus Cristo”, segundo o Evangelho de Mateus,
capítulo 16, versículos 13 a
19, Jesus pergunta a Simão Pedro sobre quem ele, Jesus, seria.
A resposta de
Simão é: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus Vivo.”
E Jesus afirma: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas! Porque isso não lhe foi revelado por carne ou
sangue, mas por meu Pai, que está nos céus. E eu lhe digo que você é Pedro,
e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja...”.
A afirmação de
Jesus deixa claro que a pedra a qual ele se refere é a revelação do Espírito de Deus, que supera o entendimento da “carne
ou do sangue”.
Assim, pode-se concluir que a
igreja, na verdade, está dentro de cada um que recebe, do Espírito, a mesma
convicção que Pedro recebeu: a de que Jesus é o Filho do Deus Vivo.
E é justamente
nesse ponto que surge um grande dilema,
pois as igrejas, que sustentam os pilares da religião, se sentem mais
confortáveis quando colocam Deus nas cerimônias e no cumprimento de ritos e de
obras, esquecendo-se da verdadeira relação com os seres humanos e no amor, indiscriminadamente, bem como na
solidariedade com os excluídos.
Anacronicamente
a isso, Jesus foi absurdamente laico. A não ser pela última ceia (pois a refeição
feita com os amigos antes de morrer não foi uma missa nem um culto, mas um ato
de despedida, com muito mais significado do que significantes), ele não fundou templo e não ditou nenhuma
norma religiosa.
De todo aquele
sistema complexo de leis, deixou apenas duas: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a ti mesmo.
Talvez
quisesse simplificar, mas, se olharmos com atenção, veremos que complicou tudo,
afinal, amar não é tão simples assim!
No entanto,
para Jesus, o “humano” era mais importante do que o “sagrado”.
O “humano” é
comum a todos. O “sagrado” exclui, começa a dividir, a criar castas.
Jesus veio
do povo e morreu para o povo. Fala de um
Deus que não se coloca em meio a lugares “altos”, “inacessíveis”. Ao contrário, fala de um Deus que se coloca
junto aos enfermos, às prostitutas, aos pobres, aos marginalizados, às
crianças, aos cegos e aos leprosos.
Portanto,
Jesus cabe na SUA “igreja”, pois a sua “igreja” é o seu coração. Pequeno assim, mas grande o suficiente para caber o
Filho do Homem!
Herta
Scarascia
Jornalista
Licenciada
em Letras e Artes pela UFV
herta@institutobrasil.com

Obrigada, querida, por este texto maravilhoso e confortante. Sempre vivi o conflito por não me ' associar' a nenhuma religião, mas sem me sentir ateia. Respeito todas as formas de manifestação religiosa, mas não consigo 'fechar' com nenhuma. Sinto Deus em mim, mas não quando em uma igreja. Jesus cabe no meu coração. E isto me preenche.
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