PEQUENA ODE A MACHADO DE ASSIS
Ah, Machado! Machado de Assis!
Joaquim Maria Machado de Assis
(Rio de Janeiro, 21 de junho de 1839 — Rio de Janeiro, 29 de setembro de 1908)
Em atraso de um dia, segue minha pequena homenagem a esse enorme, na verdade, gigantesco escritor, ensaísta, pensador, filósofo... bem, a lista é enorme.
Enorme e digna, principalmente em se tratando de um escritor autodidata.
Antes de falar de Machado, eu queria contar um pouquinho de como eu "conheci" Machado de Assis.
Eu fazia curso de Letras na UFV e eu estava na casa dos 30 anos (menos). Era jovem, embora casada e mãe de dois filhos (meninos).
Eu participava de uma das aulas de literatura. A professora, faço questão de citar o nome, Therezinha Mucci, preparou a turma para um desafio.
Ela iria passar o nome e o livro de um escritor brasileiro para cada aluno.
A turma era pequena, aulas noturnas, gente cansada que trabalhava de dia, como eu.
Ela dividiu a turma em duas partes e depois foi, uma a uma, entregando o nome em um papel. Nome do autor e do livro. Nós teríamos que ler, ler muito, talvez duas ou três vezes, e fazer não só uma análise crítica, como, no papel (não havia computador) tentar fazer uma similitude de contraste e de igualdade com algo que ela ainda iria nos passar, ago relacionado com o livro que cada um de nós receberia.
Ela iria passar o nome e o livro de um escritor brasileiro para cada aluno.
A turma era pequena, aulas noturnas, gente cansada que trabalhava de dia, como eu.
Ela dividiu a turma em duas partes e depois foi, uma a uma, entregando o nome em um papel. Nome do autor e do livro. Nós teríamos que ler, ler muito, talvez duas ou três vezes, e fazer não só uma análise crítica, como, no papel (não havia computador) tentar fazer uma similitude de contraste e de igualdade com algo que ela ainda iria nos passar, ago relacionado com o livro que cada um de nós receberia.
Esperei, meio chateada, com fome, com vontade de ir embora, de ver meus filhos, afinal eu trabalhava oito horas por dia, e também de curiosidade, de ir logo me deparando com o tal autor e título. Curioooooosa!
Mas fui a última. Logo a última. E abri o papel e o nome do livro: Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Ok. Achei bom. Nunca tinha lido nada completo dele. Só alguns parágrafos com outros professores. Achava o cara meio exageradamente erudito, mas teria que fazer. Era a nota final pra terminar a matéria.
Dois dias depois, eu já estava com o livro e já estava deitada na minha cama, depois de tudo arrumado em casa, com os filhos, tomado banho, enfim, pronta para encarar o livro. E eu tenho - até hoje - o costume de marcar - com marcador - tudo o que chama a minha atenção nos livros que leio. Horror para muita gente. Livro meu não presta pra ninguém. É sempre marcado a meu bel prazer.
Pois bem. Canetinha marcadora na boca (outro horror) e começo do de sempre: início do início. E logo de cara me deparo com a dedicatória:
Pois bem. Canetinha marcadora na boca (outro horror) e começo do de sempre: início do início. E logo de cara me deparo com a dedicatória:
"Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico como saudosa lembrança estas memórias póstumas."
Eu dei um pulo da cama. Fiquei estarrecida, confusa.
Dedicatória ao verme??? O que esse cara quer? Nem nos mais bizarros livros eu havia me deparado com uma dedicatória tão, digamos, singular.... e nojenta!
E com saudosa lembrança? Ele quer chocar?
Bem, pensei na época, "memórias póstumas". O cara tá morto. É um escritor mortinho. E tá curtindo tá morto. Tá curtindo até os vermes, essas coisas mais mórbidas e horríveis. Ele deve ser louco mesmo.
Eu dei um pulo da cama. Fiquei estarrecida, confusa.
Dedicatória ao verme??? O que esse cara quer? Nem nos mais bizarros livros eu havia me deparado com uma dedicatória tão, digamos, singular.... e nojenta!
E com saudosa lembrança? Ele quer chocar?
Bem, pensei na época, "memórias póstumas". O cara tá morto. É um escritor mortinho. E tá curtindo tá morto. Tá curtindo até os vermes, essas coisas mais mórbidas e horríveis. Ele deve ser louco mesmo.
No dia seguinte, depois de umas centenas de elucubrações, sem ainda ler nada, eu fui correndo na sala da minha professora:
- Mas, dona Therezinha, o que isso? Um escritor-defunto que faz dedicatória ao verme? Você quer me reprovar?
Ela riu... riu... gargalhou! E o papo não rendeu. Parou na risada dela.
Ela apenas me disse:
- Vamos conversar um pouco mais adiante. Daqui a uns dois ou três capítulos, tá bom, Herta?
Ela apenas me disse:
- Vamos conversar um pouco mais adiante. Daqui a uns dois ou três capítulos, tá bom, Herta?
Como eu estava louca pra entender aquilo, eu saí comendo o livro no horário de folga do trabalho. O pessoal deve ter pensado que eu estava com dor de barriga ou coisa semelhante. Eu não saía do banheiro. O tempo todo comigo, o defunto falante, ou melhor, Brás Cubas.
E lendo, lendo, atenta, deslumbrada, alucinada, apaixonada... começo a me encantar pela mente brilhante de Machado.
Ele não é só um gênio que escreve bem, que sabe quando o leitor está com raiva ou com vontade de chorar ou triste ou aborrecido com o que ELE está escrevendo. NÃO. Ele vai longe. Ele brinca com tudo, seriamente.
Já na dedicatória, ele embute todo o estilo da narrativa e da essência a ser seguida. Brás Cubas é um mortinho de pneumonia. A "causa mortis" tá lá, sem estar lá. A narrativa já chegou há muito tempo e ninguém se dá conta disso. O funeral do autor, o emplastro Brás Cubas e então, ops, o morto é Brás Cubas, um cara que se virava para inventar sua cura. E por aí vai. Uma sucessão de diálogos do morto com a gente e da gente com ele, inconscientemente. Quer mais?
Ele não é só um gênio que escreve bem, que sabe quando o leitor está com raiva ou com vontade de chorar ou triste ou aborrecido com o que ELE está escrevendo. NÃO. Ele vai longe. Ele brinca com tudo, seriamente.
Já na dedicatória, ele embute todo o estilo da narrativa e da essência a ser seguida. Brás Cubas é um mortinho de pneumonia. A "causa mortis" tá lá, sem estar lá. A narrativa já chegou há muito tempo e ninguém se dá conta disso. O funeral do autor, o emplastro Brás Cubas e então, ops, o morto é Brás Cubas, um cara que se virava para inventar sua cura. E por aí vai. Uma sucessão de diálogos do morto com a gente e da gente com ele, inconscientemente. Quer mais?
O riquinho, que se dá bem na vida em quase tudo, mulheres, viagem, política, enfim, o morto bem vivido acaba terminando sua lida de forma negativista, amarga e sem ilusão: o último capítulo do livro é bastante pesado. Brás Cubas se vê como um derrotado assumido, dizendo coisas do tipo: "Não alcancei a celebridade do emplasto, não fui ministro, não fui califa, não conheci o casamento. Verdade é que, ao lado dessas faltas, coube-me a boa fortuna de não comprar o pão com o suor do meu rosto. Mais; não padeci a morte de D. Plácida, nem a semidemência do Quincas Borba (amigo dele que aparece em outro livro de Machado). Somadas umas coisas e outras, qualquer pessoa imaginará que não houve míngua nem sobra, e consequentemente que saí quite com a vida. E imaginará mal; porque ao chegar a este outro lado do mistério, achei-me com um pequeno saldo, que é a derradeira negativa deste capítulo de negativas:
- Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria."
PIRANTE! IMPRESSIONANTE! ADMIRÁVEL! ÚNICO!
Eu não quero morrer sem ver o nome de Machado de Assis em um prêmio Nobel de Literatura. Se vi o nome do Bob Dylan, não me digam que Machado não será admirado só por causa da xenofobia com relação às pessoas de países em desenvolvimento (para Nobel em Literatura). O máximo que a língua portuguesa chegou foi nas letras de Saramago. Um prêmio pela aceitação de Portugal.
Que mundo pequeno! Sem originalidade e banal!
Voltemos...
Voltemos...
Machado de Assis nunca frequentou uma escola - para estudos formais - em sua vida.
Mulato, epiléptico, gago, Machado de Assis era filho de Francisco José Machado de Assis e da lavadeira, Leopoldina Machado de Assis. Digo lavadeira porque foi um dos motivos que levaram Machado a sofrer inúmeros e severos preconceitos.
Ele era também neto de escravos alforriados.
Machado de Assis foi criado em lugar extremamente precário, em um morro no Rio de Janeiro chamado Livramento.
Ele trabalhava desde menino para ajudar a família.
Embora nunca tivesse pisado dentro de uma escola ou frequentado regularmente qualquer tipo de escola, o seu altíssimo grau de curiosidade é de instrução, incluindo línguas estrangeiras, como o inglês e o francês, o levaram a estudar sozinho, aprendendo as línguas por conta própria.
Todo o conhecimento de Machado se deu por mérito próprio, graças à sua vontade com relação às literaturas, em geral, e à sua enorme determinação em superar as limitações, alcançando leituras em várias línguas.
Tudo isso Machado fez sozinho, mesmo porque havia um grande e vexatório preconceito com relação à sua cor, à epilepsia, à gagueira e à condição social na qual ele pertencia.
Apesar de tudo isso, Machado de Assis se superou, superou uma sociedade decadente e preconceituosa e, hoje, é lido em vários idiomas e considerado um dos maiores escritores do Brasil, sendo comparado - em estilo e patamar - a Flaubert e Dostoiévski. Eu, particularmente, ainda o considero melhor que ambos.
Quando Machado de Assis estava com cerca de 10 anos de idade, ele perdeu seu pai, sua mãe e sua única irmã. Tornou-se completamente só. Mas não arrefeceu-se.
Aos 16 anos, ele ganhou um empregou como assistente de tipografia. Naquele local, ele começou a publicar o que seriam os seus primeiros registros literários.
Em 1869, ele casou-se com sua então noiva, Carolina Augusta Xavier de Novais.
Esse casamento aconteceu totalmente contra a vontade da família da noiva, que teria vindo da cidade de Porto, Portugal.
O motivo? Eles não aceitavam a cor da pele e as condições de saúde de Machado. Afinal, Carolina fazia parte de uma família da nobreza portuguesa. E, para eles, isso era uma ofensa. Casar uma filha com um plebeu pobre, mulato, epiléptico, gato e sem educação formal, apesar da fama que se erguia, era uma ofensa.
De qualquer maneira, Carolina não era qualquer uma. Ela se opôs a toda a sua família portuguesa e a toda a sociedade lusitana que morava no Rio e se uniu a Machado de Assis em um matrimônio que durou 35 anos.
Eles não tiveram filhos, por opção, mas Carolina contribuiu para o amadurecimento profissional de Machado, abrindo um leque para os clássicos portugueses e vários autores da língua inglesa.
Em torno de 1880, todo o trabalho de Machado de Assis se voltou para estilos e conteúdos diferentes. Ele, na verdade, estava dando entrada ao Realismo dentro da literatura brasileira, com os famosos e fantásticos, Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borbas, Dom Casmurro e muitos outros.
E nesse burburinho de mudanças, de novos climas e de novos ares foi que Machado fundou a Academia Brasileira de Letras, em 1897.
No entanto, apenas sete anos depois de inaugurar a ABL, o pior pesadelo da vida de Machado havia ocorrido.
Exatamente em 1904, morre Carolina. O golpe foi duro para Machado de Assis. Ele mudou completamente sua vida. Raramente saía de casa e, assim, a saúde dele começou a deteriorar por causa de inúmeros fatores, principalmente da epilepsia. A questão dos problemas neurológicos e da gagueira também recrudesceram e o isolaram ainda mais.
Carolina Augusta Xavier de Novaes Machado de Assis
(Porto, 1835 - Rio de Janeiro, 1904)
Logo após a morte de Carolina, Machado de Assis escreveu um dos poemas mais lindos (um soneto) que eu já li na minha vida. E escreveu sentado ao lado do túmulo dela, em meio a muitas saudades e muita dor.
A Carolina
- Querida! Ao pé do leito derradeiro,
- em que descansas desta longa vida,
- aqui venho e virei, pobre querida,
- trazer-te o coração de companheiro.
- Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro
- que, a despeito de toda a humana lida,
- fez a nossa existência apetecida
- e num recanto pôs um mundo inteiro...
- Trago-te flores - restos arrancados
- da terra que nos viu passar unidos
- e ora mortos nos deixa e separados;
- que eu, se tenho, nos olhos mal feridos,
- pensamentos de vida formulados,
- são pensamentos idos e vividos.
Logo depois de ser aclamado como o melhor escritor brasileiro e também aclamado como presidente da Academia Brasileira de Letras (da qual foi fundador), Joaquim Maria Machado de Assis, aos 69 anos de idade, no dia 29 de setembro de 1908, é encontrado morto em sua casa.
Vários foram os motivos alegados, mas todos sabem que a ausência de sua Carolina foi, de fato, quem falou mais alto.
Eu sempre digo que não gosto de aforismos porque tira a frase do contexto. No entanto, cabem aqui lembrar de alguns trechos de Machado, muitos deles retirados de diálogos que estão nas suas verdeiras obras de arte. Sinto muito. Não dá para colocar toda a obra de arte de Machado aqui. No entanto, é aconselhável conhecer, pelo menos, os livros desse gênio da literatura.
"Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor.
O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento."
"Pois o silêncio não tem fisionomia, mas as palavras, muitas faces..."
"Descobri uma lei sublime, a lei da equivalência das janelas, e estabeleci que o modo de compensar uma janela fechada é abrir outra, a fim de que a moral possa arejar continuamente a consciência."
"Creiam-me, o menos mal é recordar; ninguém se fie da felicidade presente; há nela uma gota da baba de Caim."
"Não há uma alegria pública que valha uma boa alegria particular." Deixa pra lá Pascal dizer que o homem é um caniço pensante. Não é. É uma errata pensante. Isso sim. Cada estação da vida é uma edição que corrige a anterior, e que será corrigida também, até a edição definitiva, que o editor dá de graça aos vermes."
"Não tive filhos. Não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
"Lágrimas não são argumentos". "Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade. Se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir."
"Suporta-se facilmente a cólica dos outros."
"A velhice ridícula é, porventura, a mais triste e derradeira surpresa da natureza humana."
"Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas."
"Mas o tempo, o tempo caleja a sensibilidade."
"(...) Marcela amou-me durante quinze meses e onze conto de réis (...)"
"Aos quinze anos, tudo é infinito."
"A mentira é, muitas vezes, tão involuntária quanto a respiração".
"A saúde da alma, bradou ele, é a ocupação mais digna do médico."
"Também a dor tem suas hipocrisias."
"O vício é, muitas vezes, o estrume da virtude."
"Escrever é uma questão de colocar acentos."
"O maior pecado, depois do pecado, é a publicação do pecado."
(Aforismos de Machado de Assis)


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