O CONFESSIONÁRIO



Lá estava eu, sufocada pelo calor e pelas paixões da alma e da carne. 
40 graus. 
Pensamentos desconexos. 

A bruma do verão queimava o resto da razão que me sobrava. 
De repente, no meio do nada, vi o contorno de uma igreja.  

Igreja? Senti náuseas. Precisei vomitar desespero, falta de mim,  de lugar, de espaço. Falta de mundo, de gente, de Deus. 

E corri. Corri desesperadamente e, quando dei por mim, estava no púlpito. No púlpito daquela igreja.
Coisas douradas demais, misturadas demais, anjos demais, olhos sem brilhos, brilhos sem olhos, rostos estranhos, gessos pintados, gestos montados.

Não reconhecia tudo aquilo.  Não conseguia ver Jesus.  Será que Ele andou por lá? Ele anda por onde quiser. Minha cabeça não conseguia pensar.

 “Preciso de Deus.  Mas onde está Deus? Quem é Deus? 
Não o encontro! 

Que silêncio! Onde estou?”

- Oi! Pode me ajudar? - vejo alguém em paz.
- Claro! – uma senhora idosa se levanta.
- Acho que se eu me confessar vou melhorar. 
- Onde está o padre?  – atormentada, continuo falando.
- Ele está lá, no confessionário – responde, calmamente, a distinta senhora.

(“Claro! Confessionário! Aquela cabine de madeira fechada, escura, com janelinhas cobertas por cortinas! Lá dentro, o padre! Fica sentadinho, ouvindo com atenção e muito carinho os pecados dos fiéis que, ajoelhados, em degraus abaixo,  se sentem à vontade para falar de seus pecados semanais. Pecados tão escusos que a telinha protege o rosto! Que bom! É lá. É lá que eu vou.)

- Onde fica? – volto à senhora. 
- No fundo do corredor, do lado de fora.

Comecei a correr, quase tropeço. Um rapaz, de voz efeminada, fala bem alto:
- Cuidado, mocinha. Vai cair.

“Mocinha?” – “Eu tenho mais de 40! Ele pirou?”

E, correndo, fui pensando:  “Os gays são mesmo de bem com a vida! Se eu acreditasse em reencarnação, queria “voltar” gay: eles têm bom gosto, sabem dançar e são divertidos. Esse rapaz deve ter lido na minha cara: "tormenta à vista” e quis aplacar o tornado. Deixa estar”.
Cheguei. Cheguei? NÃO!!!!!!  Não é possível! Uma casinha branca, sem graça, comum.

- É aqui o confessionário? – pergunto, decepcionada e com o coração a mil.
- Sim, mas já fechou – responde um rapaz de cara fechada, lavando a área.

"Como assim "fechou?""

Bato. Bato. Bato até esmurrar a porta. Uma senhora aparece na janela:

- Já fechou. Só temos duas senhoras aqui a sermos atendidas.

“Atendidas”? “Mas não é um confessionário?” “Deixa pra lá -  de novo” – penso.

E quase implorei:
- Abra pra mim, por favor. Só passaram dois minutos.
- Não posso - repete em tom louva-Deus.
- Por favor! Pelo amor de DEUS.

Senti a fechadura. A porta se abriu  Uma luz saiu de dentro e Nossa Senhora apareceu. Nossa Senhora tinha um lindo cabelo longo – batendo na cintura. Com um sorriso de bondade, ela não dizia nada e, ao mesmo tempo, dizia tudo.

- Obrigada. Muito obrigada. Você é um anjo... Desculpe-me, acho que é uma Nossa! Senhora? - E rio, extremamente grata.

Mesmo sentada, não consiguia respirar. Caí em mim e me deparei com uma sala como outra qualquer. Duas senhoras e... a Nossa Senhora!
Bem de frente, Jesus, loiro, de olhos azuis, pele clara. Europeu!!!  Desenhado num papel pregado na parede. 
Que horror! Parecia olhar  fixamente para o “nada” que há em mim.

E pensei:
- Mas Jesus era palestino!  Um pobre nazareno!  
E digo isso alto e bom tom, completando com:
- Como pode ele estar assim, tão branco? – Palestinos não são tão brancos, ou são? Isso tá errado! 

E fechei a cara, não gostando do que via.
Senti um impulso de ir até aquele desenho no papel e rasgar tudo, mas Nossa Senhora me deteve com doçura. 

Não suportava mais ficar com um Jesus me olhando daquele jeito, perscrutando os meandros de mim, farejando meu lado sombrio, como se fosse um general das SS, com um estranho adendo de ter pinceladas de ternura.  Isso tá mesmo estranho. 

Disparei a chorar. Chorei compulsivamente. Agora, uma das mulheres à minha direita começou a me consolar, dizendo coisas como quatro quintas feiras de cura do Padre João e libertação do Frei Antônio.

 Pensei de novo: “Conheço essa história ou isso é uma ilusão auditiva?”.

De repente, dou conta de que suspendo tudo só para ouvir as histórias de Nossa Senhora.  

- Olha, eu tenho uma vida tão boa! Além de assistir missa todo santo dia, eu venho aqui todo santo mês, a pé, e eu ando uma hora e meia, só para me confessar.

- Mas confessar o quê? Que pecados você tem? – pergunto, em meio a lágrimas secando. 

- Ah! De fato não tenho grandes pecados, mas pecadinhos crescem e se transformam em pecadões. (E ela coloca as mãos sobre a boca, como se rir fosse um pecadinho a mais. E ri comedidamente).

- Sabe? Eu sou uma mocinha muito obediente a Deus. Tenho minha bíblia (e ela me mostra a sua bíblia cheia de santos e tercinhos cor de rosa pendurados)...  e leio sempre o salmo 23.

“Que bom” - pensei.

E Nossa Senhora continua:

- Na minha casa – continua – que é casa de mocinha, você entra e tem um terço em todas as portas... ri... ri... ri... (A voz vai ficando cada vez mais infantil, os trejeitos, de criança, são tão singelos, que dá vergonha de ser adulta. A meia, com bolinhas nas pontas, caindo para fora, também é  de criança, o tênis, rosa-bebê. Enfim, Nossa Senhora é quase uma criança... e eu não sabia!!! E eu não sei se gargalho ou se enlouqueço).

          De repente, ela ficou muito séria: 

- O padre já benzeu sua casa?
- Não - respondo meio tonta com tudo aquilo. 
- Ah! Então é isso. Pode acreditar. Se ele benzer sua casa, você não vai mais chorar.  

Minha cabeça começou a girar. Estava confusa.  Queria ser uma louca dessas santas que não precisam de pílulas para viver. Queria ser uma dádiva da insensatez da parafernália que não pensa, mas age e vai vivendo, como um animalzinho, assim, como Nossa Senhora, crescendo como uma criança.

- Cadê o padre? - pergunto de novo.
- Calma, você está bem? Está tão pálida? Quer uma água?
- Eu quero me esvaziar. Onde está o confessionário?

- Ah? ri ri ri...  Você quer ir ao banheiro, não é?

Sinto vontade de quebrar tudo. Como fazer Nossa Senhora entender que “meu pote está até aqui de mágoas e que qualquer desatenção, faça não, pode ser a gota d´água?”

Velho Chico, não o das águas, mas o das canções, me socorra!!!!
Ave, Maria, cadê sua graça?!

Comecei a ficar nervosa com Nossa Senhora e não aguentava mais ver Jesus na parede, me encarando, como se já estivesse descoberto cada palavra que eu NÃO fosse dizer. 
Tentei, em vão, manter o controle e, assim... 

Nossa Senhora ri.... E eu choro.

Enfim, chegou a vez de uma de nós; e ela deixa, como mais um gesto de sua bondade sem fim, eu passar na sua frente e ir falar com o tal padre Joaquim. 

Abro a porta.  Entro. Sento. Ele, de batina branca e um pano vermelho, tipo cachecol, no pescoço. Cara fechada. Sisudo. Carrancudo. Dom Casmurro??? Será que foi Bentinho? Fez Seminário. Será que foi aquebrantado? Será que teve uma experiência ruim?

Não sei. Sofrido? Não sei. Revoltado? Não sei. Quase saio. Mas é apenas um padre. Sento. Levanto. Sento novamente. Olhos nos olhos. Não falo. Comecei a chorar. E choro, choro e choro. Ele se move, desconfortavelmente, e dispara:

- Quer voltar outra hora?

- NÃO.....  Quero dizer... Não! Preciso que me ajude. Mas antes, informo:

- Não sei se acredito em Deus, estou confusa com relação à Jesus e não tenho religião. 

E ele me solta esta: 
- Se não tem fé e mais ainda, não é católica, não posso fazer nada por você. Só atendo católicos.
E eu solta esta:
- E se Jesus dissesse isso a você:

 “Se negou atender alguém por falta de fé ou por causa de religião, não te reconheço. Só reconheço quem atendeu a todos, sem distinção de raça ou credo”?

E ele fica mal. Muito mal. Se ajeitou na cadeira. Tossiu uma duas vezes e eu, com mais um pecadinho no meu rol de pecados, acabei pedindo perdão.  

- Me perdoe, padre, é que quero falar das dores da alma e o senhor tenta me descartar através de um discurso sócio-político-religioso. Poderia, por favor, quebrar essa regra hoje e fazer qualquer coisa para eu sair daqui com o coração mais leve? 
 
No final da nossa longa conversa, ele pediu que eu me ajoelhasse, impôs as mãos sobre mim e orou, sei lá, suplicando uma proteção e um livramento.

De certa forma, eu me senti leve e, creio, ele se condoera.   

De alguma maneira, houve uma troca. Mesmo num lugar, até então esquisito e inadequado para mim, em meio a lágrimas, confusão, coisas douradas demais, pia batismal, olhares desconhecidos e sem expressão e um Jesus europeizado, encontrei um homem negro, pobre, escondido atrás de uma batina e de dogmas que exigiam dele um comportamento infra-humano, com um coração trancafiado em jaulas. Ele teve que aprender, não sei por que, a não sentir.

  Por breves instantes, eu tive ar para respirar. Ganhei um pequeno balão de oxigênio.  Ele me passou o que pôde, o que tinha para oferecer; e eu, de certa forma, com o coração apertado e com a mente confusa, creio que pude, mesmo que por alguns instantes, quebrar alguns elos da corrente que pesava sobre seu pescoço, com a cruz lá embaixo.
   
Quando entrei na sala, deparei-me com um tipo Dom Casmurro. Ao sair, deixei um tipo Bentinho, que talvez “durasse” o mesmo tempo que o meu balão de oxigênio.  

Nunca se sabe...


            Ah! Também acabei conhecendo Nossa Senhora!   
 A propósito, ela é uma "mocinha" de 48 anos de idade! 

(Herta, BH) 

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