A MALFADADA HISTERIA
Foto de sessão de
hipnose de Jean Martin Charcot
Como não podia deixar de ser, a histeria, nome de origem
grega (hystera significa, em grego, útero; e hysterikos, um estado clínico
vinculado às mulheres) era vista como uma disfunção ligada tão-somente às
mulheres. Por receber este nome, hystera – útero – as mulheres que sofriam
algum tipo de ataque nervoso ou até mesmo de
doenças psicossomáticas eram vistas como pessoas que possuíam o sangue
contaminado e que, com este sangue chegando ao cérebro, elas seriam atacadas
por convulsões.
Frente à fragilidade e à carência, bem como à falta de
saber se expressar corretamente em momentos de crise, essas mulheres eram
jogadas, literalmente, em asilos (que seriam os até poucos anos atrás, chamados
hospícios ou as atuais internações).
Naquela época e também em alguns locais hoje em dia,
essas mulheres eram descarregadas em locais onde também eram descarregados,
todos igualmente, epilépticos e doentes mentais graves.
Para o teatro do
absurdo, a cereja do bolo era a audiência do quadro médico clínico, que se deliciava
com “showbuzz” , afinal, nem todas as
mulheres ali jogadas como carniça louca eram velhas despenteadas e desdentadas.
Não. Havia, diante dos médicos ávidos em “tratá-las” as mocinhas jovens, belas
e virgens, que se lançavam ao chão, contorcendo-se, rasgando suas próprias
roupas e, completamente exaustas, entregues, finalmente, sem sentido.
E se se pensar que isso foi há muitos anos, engano.
Somente no final do séc. XIX é que alguns médicos chegaram à conclusão de que a
histeria não era uma doença propriamente dita e, mais ainda, não era algo
ligado ao útero e que também não era exclusividade das mulheres.
Charcot, Freud e Breuer
No séc. XIX, Jean-Martin Charcot, mais conhecido como Charcot (1825-1893), um grande neurologista francês, usava
a hipnose para
estudar a histeria.
Ele chegou a várias conclusões, entre elas a de que
ideias mórbidas podiam produzir manifestações físicas.
Posteriormente, Freud, em colaboração com Breuer, começou a pesquisar
os mecanismos psíquicos da histeria e postulou em sua teoria que essa neurose
era causada por lembranças reprimidas, de grande intensidade emocional.
A questão dos sintomas da histeria foi o grande
desafio para Freud, que, a partir desse
quadro, desenvolveu técnicas específicas
para conduzir o tratamento de suas pacientes. Naquele momento, nascia a Psicanálise.
Pouco a pouco, eles foram concluindo que a histeria não era um distúrbio que acometia
exclusivamente as mulheres, mas nelas era predominante.
Segundo Freud, "...o nome “histeria” tem origem nos
primórdios da medicina e resulta do preconceito, superado somente nos dias
atuais, que vincula as neuroses às doenças do aparelho sexual feminino.
[“Freud já dizia que a histeria está
associada à sexualidade, não só das mulheres, como ele próprio demonstrou, mas
também da dos homens, que não estão livres dos conflitos inconscientes”.
As pessoas diagnosticadas com histeria,
mesmo nos dias de hoje, relatam casos de abusos físicos ou sexuais, mas nem
sempre reais. Isso foi até um motivo de
estudo do próprio Freud ao observar que fantasias dessa natureza também
provocam sintomas histéricos em seus pacientes.]
Na Idade Média, as neuroses desempenharam um papel
significativo na história da civilização; surgiam sob a forma de epidemias, em consequência
de contágio psíquico, e estavam na origem do que era fatual na história da possessão e feitiçaria.
Alguns documentos daquela época provam que sua
sintomatologia não sofreu modificação até os dias atuais. Uma abordagem
adequada e uma melhor compreensão da doença tiveram início apenas com os
trabalhos de Charcot e da escola do Salpêtrière, inspirada por ele. Até essa época,
a histeria tinha sido a “bête noire” da medicina.
As pobres histéricas, que em séculos anteriores
tinham sido lançadas à fogueira ou exorcizadas, em épocas recentes e mais esclarecidas, estavam sujeitas à maldição do ridículo; e seu estado era tido como
indigno de observação clínica, como se fosse simulação e exagero (...)
Na Idade Média, a descoberta de áreas anestésicas e
não-hemorrágicas (sigmata Diaboli) era considerada prova de
feitiçaria."
Hoje: preconceito e falta de tratamento
adequado
A histeria, saindo dos porões da
ignorância, não vai exatamente para a luz. Ela cai em uma região cinzenta, sem
conforto nem para os médicos, nem para
os pacientes.
Os primeiros, na grande maioria neurologistas
e psiquiatras, não conseguem enxergar a origem emocional das crises, mesmo
porque consideraram, por longos anos, a histeria um caso morto e enterrado (e
mal resolvido).
E os pacientes sofrem com o descrédito,
o preconceito, a falta de compreensão, inclusive da família, e com a angústia
de não saber mais o que fazer, o que, do que, afinal, eles sofrem. A baixa autoestima contribui para uma péssima
qualidade de vida, e os medicamentos simplesmente não funcionam mais.
(Herta)

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