A ANGÚSTIA E O VAZIO
Arte e foto: Herta Scarascia
Acordo. E quase sempre quando acordo, embora eu tenha tantos amores, motivos-amores, motivos-vida, cheiros, aromas, cores e uma vista que me remete aos meus seis anos de idade, quando eu morava na Vila Gianetti, porém em outro ângulo, mantendo o mesmo morro, o mesmo céu, os mesmos cantos de pássaros, os mesmos flamboaiãs (e quase posso sentir o mesmo cheiro da tortas das doninhas que competiam subliminarmente o dom da cozinha, menos minha mãe, que sempre estava trancada no mundo dela com uma dúzia ou mais de livros, tão inacessível quanto o Everest é pra mim), eu sinto angústia.
Sim, eu sinto angústia. Meu peito dói. E sinto que não quero viver.
Corre-me na espinha o sentimento de que somos extremamente vagos, efêmeros e quase dispensáveis.
Pra que viver? Sempre procuro essa resposta.
Porque, no fundo, o que sinto é um vazio.
Um sentimento estranho que não se sabe localizar, não se sabe achar, não se sabe explicar: vontade de não abrir mais os olhos. Vontade de nunca ter nascido.
Apenas isso: um peito cheio de vazio.
Acho que é isso. Ouço crianças na creche, quase sempre aos berros, com
uma alegria que chega a me causar interrogações, como se berrar fosse uma
declaração de amor à vida. Ouço alguns gritos de estudantes, jovens demais,
quase adolescentes... E me afundo mais na cama.
Não choro.
Tudo é seco demais.
Repenso, todas as manhãs, e também ao entardecer, o que será que alimenta a vontade do homem em viver?
Como nunca encontro uma resposta, eu mudo o foco da questão. O que quer
o homem? O que move o ser humano?
Já me senti movida... Me lembro. Extremamente movida, excitada com os
fatos, com os sonhos, com os desejos que, porventura, andassem por aí afora.
Hoje? Não passam de pilhéria.
Vejo as vidas vividas e quão rápidas são
cada uma delas. A efemeridade me assusta. Mas não é só a efemeridade que me afasta do motivo “viver”. Eu não
mudaria em nada esse sentimento se cada um de nós tivéssemos mais 100 ou 200
anos a mais. É algo mais intrínseco à maneira de como o homem se relaciona com o outro homem e com o mundo.
Não há verdade, há uma miséria dolorida, onde as cartas jogadas são doces
enganos.
Todos estão se enganando para esconder o vazio.
O mais difícil de lidar e de aceitar: o seu próprio vazio. Não me refiro a qualquer vazio, mas ao vazio primeiro, ao vazio primitivo, primigênio.
O que mais poderá deixar qualquer um de nós indignado com relação a esse
vazio é que ele é, não só inerente, mas também essencial à nossa sobrevivência.
Parece estranho, não é? Pois é.
Aprendi isso aí há alguns anos, embora aprender não tenha tirado de mim a dor da angústia. Mas vou compartilhar.
Foi em meio a conceitos filosóficos - sobre essas questões de vida e vazio - que me deparei com uma verdade dura, porém irrefutável: a nossa sensação de necessidade e a nossa carência já fora descrita não só pela filosofia, mas pela psicologia, pela literatura e extremamente entendida e demonstrada pela mitologia grega.
Vejamos, a mãe de Eros (o amor) é chamada de Penúria (a falta).
Os gregos, ah, esses gregos, já colocavam a carência (inata a todos nós)
como a origem de tudo o que nos falta na vida.
Eles explicavam que esse gosto que sentimos pelo que nos falta, ou
seja, o que está escasso e insuficiente na nossa vida, é justamente a grande centelha
que vai dar egresso às nossas ações e aos nossos sonhos.
Saber disso até que dá um certo alívio. Puxa, essa porcaria de vida sem sentido faz sentido, então?
Essa angústia que eu sinto quase todos os dias tantas outras pessoas também sentem - muitas delas nem mesmo sabendo reconhecer tratar-se da famosa "angst" (Kierkegaard, 1813-1855) -, sentindo mais um algo obscuro e impreciso, incômodo e intransigente. Pois à luz da filosofia e da sabedoria grega, esse sentimento começa a ganhar contornos mais palatáveis a partir do conhecimento de que é justamente esse sentimento que vai, paradoxalmente, ao que sempre pensamos: nos dar sentido à vida, por meio das ações e sonhos.
Ao tomar
conhecimento disso, eu senti, há anos atrás, um tipo de alívio, mesmo sabendo
não se tratar de um resultado.
Particularmente, eu procurei muitos modos de me ver livre dessa angústia inata, dessa angústia primitiva, até que, por meio de um estudo raso, porém abrangente, eu me dei conta de que nunca me verei livre dela (da angústia, da dor, do sofrimento), mas poderei usar cada um desses sentimentos como instrumento para meu crescimento aqui nesse planeta e também para o crescimento de outras pessoas.
Vou terminar com uma citação de um filósofo francês contemporâneo: “"Não se trata de suprimir o desejo, mas de transformá-lo: de desejar um pouco menos aquilo que nos falta e um pouco mais aquilo que já temos; de desejar um pouco menos o que não depende de nós e um pouco mais aquilo que de fato depende", André Comte-Sponville.
(Artigo: Herta)

ResponderExcluirExcelente texto. Denso e angustiante porém real. Essa condição humana abre duas perspectivas: ou aceitamos nossa realidade ou a questionamos. A eterna busca pelo transcendente e pelo significado de nossa existência. Texto representativo.